Exposição no Centro Cultural UFMG transforma o bordado doméstico em gesto de investigação artística 

O Centro Cultural UFMG convida para a abertura da exposição individual Avesso do avesso, do artista visual, educador e ilustrador Julian Campos. A mostra reúne uma série iniciada em 2018 e atualmente composta por 78 obras, produzidas a partir de toalhas e guardanapos bordados garimpados em brechós e bazares de caridade de São Vicente (SP), cidade onde o artista vive e trabalha. O evento de inauguração será realizdo no dia 27 de agosto, quinta-feira, às 19h. As obras poderão ser vistas até 27 de setembro. A entrada é gratuita e tem classificação livre.

Nos dias 25, 26 e 27 de agosto, das 10h às 13h, o artista Julian Campos ocupa os arredores do Centro Cultural UFMG, na região central de Belo Horizonte, com a performance relacional Pano de Penélope. A ação integra a programação paralela de sua exposição e convida transeuntes a bordarem, ao vivo e a céu aberto, uma obra em tecido de grandes dimensões.

Ao lado da instalação, uma placa sintetiza o chamado: “Borde comigo: você sabe bordar? Se não souber, eu te ensino!”. Não é necessária experiência prévia. A proposta busca estabelecer uma relação de coautoria, transformando o ato de bordar em um espaço de diálogo. Enquanto trabalham juntas, o artista e os participantes conversam sobre temas centrais à sua pesquisa poética, como gênero, trabalho e artes manuais.

A participação é gratuita, sem necessidade de inscrição, e cada pessoa poderá permanecer pelo tempo que desejar. A duração estimada de cada participação é de 10 a 20 minutos.

Avesso do avesso
As toalhas e guardanapos bordados utilizados na série de Julian foram encontrados em brechós e bazares de caridade de São Vicente/SP, cidade onde o artista reside e trabalha, e adquiridos por R$ 1 cada. Para criar cada obra, ele realizou uma espécie de performance para si mesmo: esticou as peças em bastidores e fotografou as próprias mãos executando, repetidas vezes, os gestos característicos do bordar — enfiar a linha na agulha, dar os pontos, arrematar a linha. A partir dessas fotografias, redesenhou as imagens, transpôs os desenhos para as respectivas toalhas e as bordou.

Com esse processo, o artista repete gestos comuns a todas as pessoas que bordaram antes dele, em um movimento de investigação e apropriação de um território no qual se insere como um homem que se apropria de uma técnica historicamente associada ao trabalho doméstico feminino.

Em seguida, apropriou-se de fotografias de materiais de costura encontrados em manuais de bordado, entre eles o livro Artes e Ofícios Femininos (Maria Vitorina de Freitas, Ed. Linográfica, 1948), além de imagens obtidas na internet, transferindo-as para os tecidos. O uso dessas imagens traz à tona a questão da apropriação na arte contemporânea e na própria produção do artista: seja das peças bordadas por anônimas(os), das imagens retiradas de outros meios, ou da própria aproximação com o bordado.

Foi a partir desta série que se iniciou a investigação sobre o lugar de um artista homem que faz uso do bordado, sem tê-lo recebido de outra pessoa nem como tradição familiar. Ao coletar essas peças antigas, Julian passou a se ver cercado pelo trabalho manual de pessoas anônimas, o que o levou a questionar as relações entre sua produção e a delas.

Interessa também a aproximação entre o bordado como técnica artesanal decorativa e o uso dessas toalhas e guardanapos como suporte dentro de uma produção artística contemporânea. Peças produzidas com técnicas elaboradas de bordado, transmitidas entre gerações, são desvalorizadas e vendidas por centavos. Qual é o lugar dado a esse saber humano? Por que um trabalho que carrega esse conhecimento só passa a ser visto e resgatado quando alguém se apropria dele e o insere em um contexto de “arte”? Qual é a função do artista, homem, ao se apropriar de trabalhos provavelmente realizados por mulheres? De quais privilégios ele se vale nessa ação? Quantas pessoas, provavelmente mulheres, permaneceram anônimas nesse processo?

Trajetória
A exposição Avesso do avesso já esteve em cartaz em seis ocasiões. Em 2022, o projeto da exposição foi selecionado no Edital de Ocupação da Galeria de Artes do Sesc Tocantins, quando 43 obras da série foram exibidas entre novembro e dezembro na Galeria de Artes do Centro de Atividades de Palmas/TO. O mesmo projeto foi selecionado pelo Edital de Ocupação das Galerias de Arte da Fundação Cultural de Uberaba Professor Antônio Carlos Marques, com exposição realizada no Museu de Arte Decorativa de Uberaba/MG (Mada) entre agosto e setembro de 2023. Ainda em 2023, o projeto de exposição foi contemplado no edital ProAC nº 13/2023 – Artes Visuais | Circulação de Exposição, do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas. Por meio do projeto, a exposição Avesso do avesso fez itinerância pelas cidades de Franca (LAB – Laboratório das Artes), Ribeirão Preto (Marp – Museu de Arte de Ribeirão Preto Pedro Manuel-Gismondi) e Praia Grande (Palácio das Artes), encerrando em outubro de 2024. Mais recentemente, entre março e maio de 2026, a exposição foi apresentada na Galeria de Artes do Centro de Atividades de Gurupi/TO, também por meio do Edital de Ocupação da Galeria de Artes do Sesc Tocantins, reunindo as 78 obras que atualmente compõem a série.

Sobre o artista
Julian Campos (Santos/SP, 1985) é artista visual, educador e ilustrador. Graduado em Comunicação Social pela Universidade Santa Cecília de Santos, realiza trabalhos em diversas técnicas que prezam o fazer manual, como gravura, bordado, cerâmica e colagem, tendo o desenho como assunto e linguagem artística sempre presente em sua produção. Coordena o Entre Pontos – Grupo de Estudos e Produção em Bordado e Arte Têxtil, realizado pela Casa Contemporânea (São Paulo/SP), e ministra oficinas e cursos em instituições como o Sesc-SP e a Pinacoteca de São Paulo. Participou de exposições, mostras e salões de arte no Brasil e no exterior. Em 2024, foi premiado no Salão de Artes Plásticas de Praia Grande, no Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba e no Salão de Artes Plásticas de Santos. Pelo ProAC SP, realizou a circulação da exposição individual Avesso do avesso, apresentada no Palácio das Artes (Praia Grande/SP), no MARP – Museu de Arte de Ribeirão Preto (Ribeirão Preto/SP) e no Laboratório das Artes (Franca/SP).

Exposição Avesso do avesso – Julian Campos

Abertura: 27 de agosto | 19h

Visitação: até 27 de setembro | Terças a sextas: 9h às 20h | Sábados, domingos e feriados: 9h às 17h

Local: Sala Ana Horta do Centro Cultural UFMG (Av. Santos Dumont, 174 – Centro – Belo Horizonte / MG)

Classificação indicativa: livre

Entrada gratuita