

Texto: Liel Gabino
De 11 a 29 de junho de 2025, realiza-se na Galeria da Escola de Belas Artes da UFMG a exposição dados entrópicos, composta por desenhos produzidos ao longo dos últimos quatro anos por Liel Gabino, durante a graduação em Artes Visuais. A mostra é acompanhada por um ensaio homônimo que constitui seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Abaixo, o texto da exposição:
O desenho não se comporta como uma imagem a ser contemplada passivamente; ele impõe uma nova modalidade de relação interpretativa. Mais do que apresentar uma figura completa, ele se mostra como um texto fragmentado que pede ser lido. Em outras palavras, o desenho é legível, mas não se deixa conter na quietude da contemplação estética. Sua expressão exige do observador uma atitude ativa: é preciso decifrar e reconstruir o interior privado que ele esboça, em vez de somente admirar sua forma. Nesse campo de leitura ativa, a percepção adquire o ritmo de uma tradução. O espectador torna-se coautor do sentido, deslocando-se mentalmente pelos registros sobrepostos do suporte. Não há repouso visual garantido: cada elemento do desenho tensiona o próximo, convidando saltos de associação. Desliza-se entre eras temporais internas à folha, trabalhando para recompor o evento inteiro a partir das fragmentações. O desenho cria pontos de indeterminação: espaços em branco, manchas inacabadas ou trechos de força desigual que desafiam a interpretação imediata. Ele não oferece um conteúdo fechado; ao contrário, instiga perguntas e caminhos abertos, forçando o leitor a reagir em vez de repousar. E a amplitude de tempos e forças representa-se fragmentariamente, cabendo ao intérprete sobrepor mentalmente essas camadas para alcançar totalidade. Nessa leitura, o olho não desliza inerte pelo papel, mas salta e retorna, traçando trajetórias não-lineares para desenhar o sentido por si próprio. Nesse regime, o ato de ler coincide com o de desenhar. O leitor, ao percorrer o campo gráfico, inscreve trajetórias invisíveis: projeta relações, reconstrói tensões, sustenta lacunas. Desenha no vazio. Cada salto do olho é uma linha mental e cada associação é um traço. O desenho, assim, não está completo: solicita complementação. Exige um observador disposto a não consumir, mas a agir. A folha é, além de imagem, um aparato: algo que só se realiza plenamente na relação com quem se deixa arrastar por seu regime de indeterminação. É neste ponto que o desenho se apropria do tema entrópico. Ao invés de oferecer ordem, age no limiar da desordem controlada. A instabilidade de seus elementos, a sobreposição de tempos, a oscilação entre presença e ausência — tudo aponta para um sistema que não fecha e se reconfigura constantemente. E essa reconfiguração depende do outro. O traço não significa, mas exige: leitura como coabitação do risco.
