Entre o cosmos e o caos


Na tradição da filosofia antiga, cosmos, do grego kósmos, é a ordem do mundo, o princípio regulador e as leis da harmonia do universo. Além de significar, no sentido atual, o composto de matéria e energia do espaço sideral, cosmos refere-se ao ordenamento da natureza e da cultura, tanto em relação ao Estado, como na organização de solenidades religiosas. Por oposição a caos, do grego cháos, o cosmos foi criado segundo um modelo eterno e perfeito. Conforme a tradição platônica, caos é a desordem e confusão que precede a intervenção do demiurgo, o artesão divino que modela a matéria caótica preexistente. O caos é o estado de indiferenciação e de mistura dos elementos, está ligado ao desequilíbrio e a irregularidade do universo.


O trabalho de Sara Ramo parece lidar diretamente com essas duas noções, cosmos e caos, embora não como oposições rígidas. Em Alguns dias passados no espaço, é como se a artista encarnasse um demiurgo (mais humano e banal do que divino). Ela não chega a criar a realidade, mas pode moldar meteoros, estrelas ou galáxias que surgem a partir da percepção de pequenos acidentes cotidianos. Se o demiurgo é aquele que exerce um ofício, um criador de obras grandiosas, pode ser também o responsável pelo mal que o Criador supremo jamais poderia gerar.


No micro universo do trabalho, restrito aos limites de um quartinho dos fundos de uma casa, a ordem não é soberana. Bolhas da parede com infiltração e tufos de poeira (cósmica?) dividem o vazio do ambiente com a regularidade e geometria dos tacos do piso. As imagens, como em pôsteres didáticos, são seguidas de definições científicas e, não sem ironia, uma mancha de leite no chão, a desordem por excelência, é convertida em Via Láctea do mesmo modo em que um balão furado torna-se um buraco negro.


Já no vídeo Meia volta, volta e meia, a relação entre cosmos e caos se dá de outro modo. Dentro de um quarto ocupado por móveis, objetos saem de seus lugares, são embaralhados e se deslocam como numa órbita ao redor e no interior do cômodo. Ao reencontrarem o local de partida, completando o movimento de translação – o equivalente a um ano na órbita da Terra em torno do Sol – algo de estranho acontece. Os móveis também mudaram de lugar e as referências não são mais as mesmas. A ordem virou caos e quando foi restabelecida, teve seu equilíbrio alterado.


Lidando claramente com analogias entre o micro e o macrocosmo, o trabalho de Sara Ramo nos mostra que as forças do universo estão em constante movimento e que às vezes, para modificar a regularidade do mundo, não é necessário destruí-lo, mas apenas realizar mínimas alterações - e assim com cada coisa. Afinal, o tempo age sobre todos os sistemas. Como no efeito borboleta, as leis iniciais e que determinam certos fenômenos são extremamente sensíveis. Pequenos movimentos podem acarretar estados adversos e inimagináveis.


Cauê Alves

Novembro de 2005