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A técnica no contexto social de seu surgimento
O trançado
A cerâmica saramenha
Papel Artesanal
A origem da cerâmica
Entrevista com Maximo Soalheiro
Minas do Ouro
Projeto de Pesquisa
Arte e Artesanato - Projeto Completo
Agradecimento aos Artistas

Grupo:

Marina Paulino Bylaardt
Marcela da Costa Ferreira
Xavier Beve
Regeane Lopes de Carvalho
Ana Virgínia Cândio
Audrey Melgaço Teixeira

ARTE BRASILEIRA - MINAS DO OURO

Com as descobertas espanholas na América, em meados do século XVI, a Coroa Portuguesa, no afã de localizar em seu “lado” a prata e pedrarias, seduz os caçadores de índios a promover as bandeiras, à procura de riquezas do solo. O pronto atendimento dos paulistas (da região de Taubaté e Piratininga), acaba por promover a interiorização do Brasil, quando descobrem o ouro, em fins do século XVII.

A corrida do ouro, que então se tornou uma febre tanto na colônia, quanto na metrópole, vai fazer chegar ao interior do país, gente de todas as raças, opiniões, credos e tradições. Uma série de medidas é tomada pela Coroa para coibir abusos e contrabando, dentre elas a proibição de instalação de seminários e noviciatos (ordens 1a. e 2a.), na região das minas. Só foi permitida a associação de leigos, ou as ordens 3as.

Como havia então a prática do absolutismo, a religião entra com destaque, como herança do europeu na cultura que se instalava na região. Porém, não foi somente o fator religioso que irrompeu o nascimento de uma variada gama de irmandades, também o status, o caráter estratificado da sociedade que ora se formava, a necessidade de relacionamento social com pessoas do “mesmo nível” e a função “previdenciária”, foram marcantes para esse desenvolvimento.

Com o aumento do número de irmãos, foi sendo necessário aumentar o tamanho das igrejas matrizes ou da ordem, das toscas ermidas vão surgindo as primitivas capelas de taipa, adobe e pilão socado. As irmandades que ainda não possuíam igrejas sentiam a necessidade de instalar na igreja matriz o altar em devoção ao seu santo, as que conseguiam erigir suas igrejas desejavam torná-las sublimes, e as famílias mais abastadas contribuíam para a construção dos altares laterais destas igrejas, cada um querendo suplantar o outro, e isso vai fazer com que aflore na região um gosto pelas artes que trará artistas e artífices de Portugal e balizar a formação de artistas nativos e mais, fazer nascer nas minas, uma arte barroca legitimamente brasileira.

Existiam naquela época as corporações de ofício, e nesse ínterim, qualquer artesão, artífice ou artista, precisava de licença para exercer sua atividade, do carpinteiro ao pintor, do mestre canteiro ao arquiteto, todos prestavam prova junto ao juiz de ofício, normalmente eleito pela câmara. A formação dos novos artífices se dava no canteiro de obras. Junto ao mestre do ofício, deixavam os pais seus filhos, garantindo fornecer-lhes roupa e calçados, e o mestre se responsabilizava pela moradia e comida e o aprendizado se dava através da prática.

Dentre os inúmeros artistas portugueses que acorreram às minas, destacamos:
Antônio Francisco Pombal (carpinteiro - tio de Antônio Francisco Lisboa) Campanário e sino da cadeia - 1721/23 - Câmara e cadeia; forro, cimalha e pés direito e consertos na Matriz de Nossa Senhora do Pilar - Ouro Preto.
Manuel Francisco Lisboa (Carpinteiro e mestre das obras reais - pai de Antônio Francisco Lisboa) Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias - Traço arquitetônico, cômoda da sacristia, coro, forro da sacristia, e cantaria,
Talha e retábulo da capela mor por se encontrar doente Xavier de Brito, da Matriz do Pilar.
Casa dos Governadores - construção, acréscimos e consertos diversos.
Obras na Igreja de Santa Efigênia; Passos; Chafariz ponte de Antônio Dias, outro no Pissarão; Ponte do Caquende, de Itaubira, etc.
Francisco Xavier de Brito (entalhador) Talha e zimbório da capela mor da Matriz do Pilar, obras na Sta. Efigênia, planta da talha da matriz de Antônio Dias. Talha da Igreja de São Francisco da Penitência (Rio), etc.
José Soares de Araújo (pintor) pintura e douramento nas igrejas do Carmo, São Francisco e Rosário em Diamantina.
José Pereira Arouca (pedreiro e carpinteiro) Trabalhou em Mariana: Igreja São Pedro dos Clérigos, S. Francisco de Assis, em Pontes, na casa Capitular, Sepultura do D. Frei M. Cruz, aquedutos, chafarizes, Catedral, Palácio, etc. Em Ouro Preto: Nossa Senhora do Carmo, São Francisco de Assis, etc., dentre outros artistas e artífices.

No século XVIII, no auge do trabalho destes e outros artistas portugueses, o barroco embora com sua chegada tardia no Brasil, representava muito bem o papel de arte da contra reforma. As igrejas com seu exterior simples, e o interior imponente; profusão de ornatos, anjos, aves, flores, volutas, dosséis e outros, exigiam um exímio trabalho de talha da madeira, antes de receber pintura e douramento. Havia, parece, um certo horror ao espaço vazio, e o rebuscado ganhava forma e ouro, muito ouro. Indiferente à miséria que assolava a região das minas, ao excesso de impostos (e também às variações compulsórias destes), à dificuldade de se conseguir os materiais que eram constantemente trazidos da Europa e inundavam o litoral, a necessidade de adaptar o aprendido, assimilando técnicas e materiais da região, as igrejas ostentavam riqueza, opulência. Era na realidade o grande teatro da Igreja, na ânsia de não perder fiéis, e também manter sobre eles um certo controle.

Os festejos, no qual concorriam em grandeza as várias irmandades, passavam do religioso ao profano durante o período da festa (dias). E vai ser neste clima, onde os padres não eram celibatos, possuíam prostíbulos e contrabando; onde até o dia em que foi proibido pelo rei, escravo comprava sua liberdade com trabalho extra; aonde brancos, negros e índios iam misturando num caldeirão o cerne do que viria a ser o nosso povo, que vão nascer, crescer e aprender as primeiras levas de brasileiros do interior. É nesse clima que vai florescer a arte de Antônio Francisco Lisboa (arquiteto, escultor e entalhador), Manuel da Costa Athayde (pintor e arquiteto), Francisco de Lima Cerqueira (pedreiro e canteiro), João Nepomuceno Correa e Castro (pintor) e Bernardo Pires (pintor), dentre outros.

A segunda metade do século XVIII vai trazer ao Brasil o Rococó, novo estilo na arte barroca e que, nas Minas Gerais, vai ganhar uma forma inteiramente nova. Com o advento da cantaria, e o uso das pedras encontradas no local para confecção de alicerce, degraus, etc., vai permitir o aparecimento de uma arquitetura com movimento. Exemplos claros encontramos nas igrejas de São Francisco de Assis e Carmo (Ouro Preto, Mariana, São João Del Rey), São Pedro dos Clérigos em Mariana e Nossa Senhora do Rosário em Ouro Preto. O interior das igrejas vai perdendo a profusão de ornatos. O altar-mor se torna simples e harmonioso, sem excesso de ornatos. Já não possui dossel, característico das primeiras fases, substituído aqui por excelentes esculturas. No alto fica o magnífico alto-relevo representando a santíssima trindade, (...) onde figura também a Virgem da Conceição. As colunas têm o terço inferior torso, como se vê em altares da mesma fase. Entre as colunas e os consolos que limitam a abertura do trono, ficam os nichos constituídos, na parte inferior, por em embasamento saliente e ornamentado, e na superior por arco arrematado em ornatos conchóides.” (São Francisco de Assis de Ouro Preto - MOURÃO, Paulo Kruger Correa - As igrejas setecentistas de Minas).

A pedra vai realizar maravilhas no barroco mineiro. Nas mãos hábeis de um escultor mulato, a esteatita toma a forma de púlpitos ornados de cenas bíblicas, de frontispícios harmoniosos com figuras que nos transmitem movimento e emoção. Na cabeça grisalha de um santo em corpo de madeira. Com seus traços marcantes - nariz aquilino, maçãs salientes, bigodes saindo nas narinas, sobrancelhas iniciando na base do nariz, olhos amendoados, Aleijadinho faz com que a pedra sorria, entre em êxtase, sofra, agonize, reflita. O que nos dirá então seu trabalho na nobre madeira. Basta uma visita ao Santuário do Bom Jesus do Matosinho em Congonhas, para ver o que este artista fazia com um centenário pedaço de cedro. As figuras das duas primeiras capelas (ceia e jardim das oliveiras), o Cristo das outras capelas e o mau ladrão na crucificação são exemplos gritantes. Em pedra ainda os Profetas, que com a ajuda de seu atelier encarnam o seu magnífico balé. Este artífice, filho de pai português com uma escrava angolana, nasceu mulato, de corpo atarracado, e meio disforme. Aos 47 anos, foi acometido de seqüelas de várias doenças (sífilis e provavelmente artrite deformante, entre outras) mas trabalha por mais quase trinta anos entalhando obras de rara beleza. O ofício provavelmente aprendeu com o pai e o tio, grandes mestres e ainda deve ter tido acesso a missais e outras fontes de gravuras vindas de outras partes do mundo, haja visto o traço de suas figuras e as roupas bizantina do apóstolos de Congonhas.
Não podemos ainda esquecer de outros grandes artistas como é o caso de Francisco de Lima Cerqueira (São Francisco de São João Del Rey) e Vieira Servas (mestre dos anjos tocheiros).

Na arte da pintura, embora vários artistas (principalmente os responsáveis pelas chinesices) tenham permanecido anônimos, não podemos olvidar João Nepomuceno Correa e Castro, com suas linhas e tons que embelezam a nave da Basílica de Bom Jesus, mas vamos nos ater ao exemplo de Manoel da Costa Athayde, que junto a Aleijadinho vai registrar fenômeno em nosso barroco. Apenas para situá-lo na carnação, não podemos deixar de registrar o artifício utilizado no passo do monte das oliveiras, acima citado, quando, em recurso de pintura, faz com que o Cristo transpire sangue.
Porém vamos tentar enxergar, com outros olhos, sua passagem pela Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto.
Athayde, apesar de branco (filho de portugueses), eleva a etnia brasileira ao cabedal dos anjos e santos, quando lhes dá traços mulatos - beiço volumoso, cor morena, nariz largo... Este exemplo é focalizado na pintura do teto da nave (Nossa Senhora subindo aos céus ladeada de anjos) e nos painéis da vida de são Francisco, nos quatro cantos da mesma nave. Porém algo de muito interessante vai aparecer na capela mor.
Como o azulejo, muito utilizado no barrete dos altares mores como podemos verificar nas igrejas do litoral, era de difícil transporte para o interior (pensar no tempo de viagem e penoso percurso), em Minas era utilizada a madeira imitando o azulejo, assim os pintores eram contratados para fazer o azulejamento ou “zulejamento” do altar-mor. Pois bem, nessa igreja em particular, Athayde encima o azulejamento com vários anjinhos, segurando os instrumentos de martírio e penitência (ao gosto ou tradição das igrejas franciscanas da época). Porém todos os anjinhos, sem exceção têm feições mordazes, têm cara de safados. Ora, não podemos deixar de fazer uma alusão ao que servia a arte barroca, a vida do povo nas minas e a brincadeira do artista numa das mais poderosas irmandades da época.

Todos os artistas e artífices, forasteiros ou nativos, mesclaram e legaram conhecimento às gerações futuras. No século XVIII, as artes serviam à comunidade na feitura de chafarizes, pontes, imponentes prédios da administração e na satisfação de desejos de religiosidade, penitência, sociabilidade, e educação. Ainda hoje, encontramos nestas regiões, artistas e artífices imbuídos de sentimentos parecidos. Porém, estes assinam suas obras, coisa que os anteriores, por se tratar de contrato, só assinavam recibos. Muito nos foi e ainda é deixado de legado, o sofrimento da madeira nos instrumentos do entalhador, a beleza da cor provinda da água, clara de ovo e pigmento, na formação da têmpera, as novas facilidades decorrentes da dificuldade que apresentam hoje os materiais utilizados outrora, nos trazem ainda beleza, harmonia, sentimento, prazer.

A função social da arte é primordial para qualquer civilização, seja na pintura rupestre, seja contando uma história, seja erigindo templos com bela talha e magnífica pintura, seja construindo chafarizes ou pontes, seja mostrando a história que permeia nossa vida através das artes plásticas, fotos, filmes etc. O artista age onde somos impotentes, é esse poder de subverter a realidade que faz com que a beleza da arte seja de valia a qualquer povo, se esse povo puder mesclá-la com sua realidade.

“A verdade é que não somos nem completamente sem poder, nem completamente capazes de criar nossa própria realidade(...) o que sentimos não depende apenas de nós, mas também o resultado da realidade que nos rodeia (...) o poder que possuímos , em qualquer momento, depende do que podemos arregimentar numa dada situação e quanta aceitação o mundo nos oferece em troca de nossos esforços. É , de fato, uma proposta meio a meio. Nosso poder depende em parte do que fazemos, e, em parte, do que outros fazem em resposta a isso. Nem o mito da falta de poder, nem o mito do poder absoluto fazem sentido num mundo real.” (STEINER, Claude M. - O outro lado do poder).


Bibliografia:


JARDIM, Márcio. Aleijadinho: uma síntese histórica. Belo Horizonte: Stellarum, 1995. 225p.

MARTINS, Judith. Dicionário de artistas e artífices dos séculos XVIII e XIX em Minas Gerais. Salvador: UFBA, 1976. 210p.

MOURÃO, Paulo Kruger Correa. As igrejas setecentistas de Minas. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986. 180p.

STEINER, Claude M. O outro lado do poder. 2ª ed. São Paulo: Nobel, 1986. 197p.

TERMO de Mariana: história e documentação. Ouro Preto: Editora da UFOP, 1998. 220p.

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