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A técnica no contexto social de seu surgimento
O trançado
A cerâmica saramenha
Papel Artesanal
A origem da cerâmica
Entrevista com Maximo Soalheiro
Minas do Ouro
Projeto de Pesquisa
Arte e Artesanato - Projeto Completo
Agradecimento aos Artistas

Grupo:

Marina Paulino Bylaardt
Marcela da Costa Ferreira
Xavier Beve
Regeane Lopes de Carvalho
Ana Virgínia Cândio
Audrey Melgaço Teixeira

A cerâmica Saramenha

A cerâmica Saramenha começou a ser produzida oficialmente no século XIX, na chácara Saramenha, a 3 Km de Ouro Preto em Minas Gerais.

Era bárbara, grosseira, vidrada e muito conhecida entre os viajantes; os mais ilustres foram Sanint-Hilaire e Richard Burton. Ambos registraram em seus diários as peculiaridades de um artefato que só seria valorizado mais de um século depois, por conta de estudiosos e colecionadores, como o marchand paulista Paulo Vasconcelos. Em 1963, Paulo deparou com um prato de barbeiro- espécie de bacia, com parte da borda recuada para o centro da peça — num antiquário carioca. Logo associou as características da peça aos depoimentos de Saint-Hilaire e às informações veiculadas oralmente por habitantes das áreas rurais de Ouro Preto, Cachoeira do Carmo Sabará, Santa Luzia, Mariana, Caetés, Barão de Cocais e Santa Bárbara.

Localizada a origem mineira do objeto, o colecionador iniciou a etapa de pesquisa e coleta. Conseguiu recolher castiçais, bilhas, paliteiros, saleiros, fôrmas refratárias, candeias e urinóis. Num bar de beira de estrada, chegou a encontrar duas canecas em pleno uso. Cinco anos depois de se entregar a essa aventura investigativa, Paulo tornou-se capaz de reconhecer em qualquer fragmento o exemplar saramenha, passando a colaborar com os técnicos do Patrimônio Histórico e Artístico na separação de material. Até então, historiadores e arqueólogos ficavam aturdidos com a "estranha cerâmica" que encontravam nas escavações ou pesquisas de campo feitas na região próxima a ouro Preto. Ela possuía cores que variavam entre o amarelo-ouro e o avermelhado, sendo decorada com desenhos ingênuos e recoberta com uma camada leve de verniz. Mas seu traço mais marcante é o vitrificado, obtido à custa de óxido de ferro e pedra moída derretidos em panelas de ferro adaptadas aos rústicos fornos da época. Notadamente, a sua concepção tem influência portuguesa, mas não só. Algumas vezes os utensílios tomam formas nitidamente chinesas, lembrando sagradas vasilhas de chá. Em outras, as formas remetem a produções mexicanas, configurando jarras ou bilhas com três saídas de água. Antoniette Fay, pesquisadora do Museu Nacional de Cerâmica, em Sèvres, ressaltou a semelhança de estilo com a louça antiga e do mesmo gênero da região francesa de Bouvais.

Apesar de projetada internacionalmente, depois de ser exibida nos anos 70 na exposição Internacional de Bruxelas, a cerâmica saramenha agoniza. Sabe-se que ela foi produzida até o final do século XIX, mas não há registro oficial de sua continuidade nos dias atuais. A não ser de forma esporádica, graças a algum descendente das antigas famílias de oleiros. Recentemente, o pesquisador mineiro Pedro Arcângelo Evangelista, conhecido como Petrus, conseguiu chegar a um artesão que parece ser o último depositário da técnica de queima e vitrificação com sal grosso. Com isso, renascem as esperanças de que essa manufatura, legitimamente nacional, possa recuperar o vigor e perdurar por muitos séculos ainda.

Reportagem: Edelma Macedo

ACERVO BDMG CULTURAL

Inconfidência Mineira

Depois de estranhar, "Ué, e não tem mais nenhum louceiro por aí?", Mestre Bitinho explicou que para ser saramenha, a cerâmica, antes de ir ao forno pela segunda vez, deve receber uma camada de verniz especial, feito com pigmentos metálicos. Esse é o principal macete de uma técnica que passou de pai para filho desde seu bisavô como um "segredo de família". Só que hoje, diante da extinção da atividade, Mestre Bitinho se dispõe a detalhar a lida para quem quiser aprender. Com pouca teoria e muita prática ele usa a didática do "ó" como bem definiu o artesão e pesquisador Petrus — para transmitir seus conhecimentos. Medidas, proporções dos materiais? Ele não faz idéia, sente na ponta do dedo o que falta, exercitando a aguçada sensibilidade mineira no trato com o barro recentemente, o Mestre "modernizou a louça, decorando-a com cachos de uva, pêssegos e folhas". Eu fiz e eles acharam graça e encomendaram, confidencia. O legado de seus antepassados não inclui apenas a técnica mas também equipamentos do século passado, como a roda (torno) e o forno a lenha, bastante rudimentares. Já tem seis aprendizes, graças a um projeto de resgate da técnica desenvolvido pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais em convênio com a prefeitura de Ouro Branco, cidade onde mora o louceiro. Aliás, a argila local é um dos ingredientes básicos da saramenha. É ela que confere a cor acinzentada, típica dessa prestigiada louça colonial.

Receita

Material: argila, macete, cobre, chumbo, manganês, torno, forno de cerâmica.

Separe a argila, misture com água e amasse bem com a ajuda de um macete. Cubra a massa com um plástico e deixe curtir, para não ficar ressecada. Em seguida, modele livremente a peça no torno, deixando-a lisa ou adornando-a com cachos de uva, pêssegos e folhas. Quando estiver seca, leve ao forno para a primeira queima, em temperatura média, para a peça não quebrar. Quando esfriar, pinte com óxidos de chumbo, cobre e manganês. Esses metais vão compor um verniz especial, que além de conferir o aspecto vitrificado da peça, colorem nos três tons característicos da saramenha: amarelo-ouro, verde e marrom-avermelhado, respectivamente. Para preparar o óxido de chumbo, derreta o metal até virar pó, passe num moinho e acrescente água até obter a consistência de lama. Quanto ao óxido de cobre, derreta-o junto com o chumbo até que virem pó. Depois acrescente água até obter consistência de lama. O óxido de manganês é produzido da mesma forma, misturando-se o metal com o chumbo. Depois de recobrir a peça e colorir com os óxidos — que o Mestre aplica com os dedos - queime novamente.

Consultoria: Mestre Bitinho.

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