Exposição Coletiva
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O Galpão Guaycurus é um antigo galpão industrial de 1800 metros quadrados. É o oposto do cubo branco - ideal perseguido pelos convencionais espaços expositivos voltados para artes plásticas. O espaço tratado aqui é cheio de marcas do tempo, como infiltrações, rachaduras, vidros quebrados, manchas na parede, teias de aranha, lixo.

Uma exposição nesse lugar não pode ser simplesmente quadros na parede. Tem que se partir para o confronto do trabalho individual de cada artista - participante com as propriedades e forças do Galpão: sua dimensão, sua luz irregular, o que ele carrega de memória de eventos já acontecidos ali, o que ele traz de sua redondeza - área bastante particular do centro da cidade: a Praça da Estação, a Rua Guaycurus. Inúmeras vezes durante a experiência da exposição pode-se ouvir dos artistas: “eu estava com a idéia de... mas quando cheguei aqui, tudo mudou”.

A maior parte dos trabalhos foi ou está sendo realizada no próprio Galpão Guaycurus, foram concebidas para lugares específicos dentro dele. Há vários casos em que o suporte das obras é a própria parede, como é o caso das pinturas de Rafael Martins ou os desenhos de Eugênio Paccelli Horta e Maíra Caldas. Os trabalhos têm relação direta com o espaço, convivem em sintonia com ele. A exposição, num todo, incorpora e harmoniza os acidentes físicos e marcas do tempo/natureza tão presentes no Galpão. O resultado é um diálogo extremamente rico entre as obras e o espaço do Galpão.

Alguns trabalhos presentes são na verdade a memória material de ações e vivências acontecidas ali, são apontamentos, indícios, no seu conjunto são uma espécie de sumário. É o caso do “Brake-fast” de Marco Paulo Rolla, as “Organofrotagens” de Lísia Maria com fotos de Marcelo Terça-Nada! ou a “Firmeza de morada” de Benjamim Abras. Por serem ‘o que ficou’ ou ‘um modo das ações continuarem presentes no espaço’ geram um nó no tempo: o que vejo agora é a memória de uma experiência passada e que não vivi, essa experiência é trazida para meu presente. Visitar essa exposição é como entrar num sítio arqueológico?

O que seria um espaço degradado, com aspecto de abandonado, é transformado por meio de intervenções, deslocamentos, rearranjos, inserção de novos elementos, novas memórias, vivências, novas marcas, novos resquícios da presença-passagem do nosso grupo por aquele espaço.

Marcelo Terça-Nada!

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