Contra o formalismo
(outra vez?)
Algumas
anotações
Maria Angélica
Melendi
Aqui a estória se acabou.
Aqui, a estória acabada.
Aqui a estória acaba.
Guimarães Rosa
Mas a arte seria ter saudades de nossa casa, mesmo estando
em nossa casa.
Kierkegaard
1.
A
palavra formalismo começa a ser ouvida em Belo Horizonte, sintomaticamente, nos
últimos anos da década de 90. Ela se insinua, sorrateira, entre as conversas de
vernissage, circula, tímida, nos
ateliês e atravessa os corredores das escolas de arte. Então, nós somos formalistas?
A acusação, porque disso se trata, provém de segmentos do sistema da arte
considerados hegemônicos.
Mas,
afinal, o que é formalismo?
2.
A
primeira vez que escutei a palavra formalismo, deve ter sido por volta de 1965.
Nesses anos, o estruturalismo começava a adentrar nas salas da Facultad de
Filosofia y Letras da Universidad de Buenos Aires e o formalismo russo estava
na base do seu desenvolvimento.
Ao
surgir, por volta do início do século XX, na Rússia, como uma ruptura contra o
romantismo tardio em literatura e o futurismo nas artes visuais, o formalismo
era parte de um movimento mais geral que pretendia fazer as artes mais
acessíveis às massas. O trabalho de arte era considerado como a soma dos
elementos formais que o compunham, abolindo, assim, a distinção entre forma e
conteúdo. A forma seria, simplesmente, a organização dos materiais
pré-estéticos.
3.
Theodor
W. Adorno considera a forma estética como “a organização objetiva de tudo o que
no interior de uma obra de arte aparece como linguagem coerente”[1].
De acordo com o filósofo, uma das leis da arte moderna é a busca por novos
materiais, entendendo por materiais não a matéria física que constitui a obra (mármore,
papel, tintas, tecido, etc.), mas a cor, a linha, a figuração ou a abstração,
os esquemas de composição, a incorporação de aspectos ou elementos provenientes
de outros campos. Sendo o material historicamente definido, a utilização dele
depende do contexto histórico no qual o artista está inserido.
Ao
conter uma formação histórica determinada, o material estaria entre o conteúdo
e a forma. Material, conteúdo e forma devem ser pensados em relação de
interdependência. Nesse contexto, a forma seria, então, “a mediação necessária
para o conteúdo estético, pois este somente surge a partir da relação
totalmente estruturada, elaborada dos materiais”[2].
4.
Em
1967, no ensaio Queixas de um crítico de
arte, Clement Greenberg observa que o termo “formalismo” começa a ser
utilizado, nos textos norte-americanos sobre arte,por volta dos anos 60[3].
Sejam quais forem as suas conotações, para o crítico, a noção de formalismo
parecia, em inglês, profundamente vulgar.
No
começo dos 70, porém, no artigo “A necessidade do formalismo”, Greenberg
utiliza o termo, sem essa conotação, ao apontar para uma certa ênfase no rigor
artesanal que poderia ser detectada na arte modernista. Assim, o formalismo
derivaria do aspecto rigoroso, “frio”, do modernismo e constituiria uma das suas
categorias essenciais, especialmente na pintura e na escultura.
Mesmo
que, para Greenberg, a qualidade de uma obra de arte fosse inseparável de seu
conteúdo e que esse conteúdo permanecesse sempre “indefinível, imparafraseável,
indiscutível”[4]
resta, contudo, a noção — implícita na palavra formalismo—, de que, numa obra
de arte, tudo o que não pertence à esfera da forma pertence necessariamente à
do conteúdo.
5.
Em
“Uma visão do modernismo” (Art Forum,
1972), Rosalind Krauss narra que Clive Bell e Roger Fry sugeriam que poderia
ser útil virar uma pintura de lado para que seu tema não interferisse na
qualidade da composição. Para esses artistas, que haviam expressado
freqüentemente seu desprezo para com o conteúdo da obra de arte, a qualidade da
obra residia exclusivamente nas suas relações formais: intervalos de cor e
forma e o arranjo desses intervalos na composição do quadro.
Para
a autora parece óbvio que “uma boa composição não vai render muita coisa além
de uma boa composição; não vai gerar obras de arte”[5].
6.
Em
“Viva o formalismo (bis) (Art Press,
1990), Yve-Alain Bois propõe reabilitar o formalismo, já não a partir de
Greenberg, mas dos textos dos formalistas russos Tinianov e Jacobson, escritos
no final da década de 20. Para eles, o formalismo tinha como objetivo
estabelecer mediações entre o lugar semântico da obra, as suas estratégias
formais e tudo o que é exterior a ela: o mundo, a luta de classes, a religião,
a história, a biografia, a tradição.
Para
o crítico francês, a mediação entre uma obra e o que ela não é, não poderia
nunca privilegiar o tema, já que este não seria mais do que um elo elementar na
interminável cadeia semântica que constitui a tessitura da obra de arte. Essa
mediação é de origem ideológica e, por isso, deve ser, em primeiro lugar,
formal pois a forma sempre é ideológica.
Segundo Bois, o historiador da arte
contemporânea deveria exercer uma operação de resistência contra as teorias antiformalistas
e político-sociais. Essa
resistência reagiria à assimbologia generalizada, reabilitando o formalismo ao destacar “as tarefas da arte,
sua dimensão epistemológica”[6].
7.
Mas, afinal, de que estamos falando hoje, em Belo
Horizonte, quando nos acusam ou quando acusamos alguém de formalista?
É evidente que não estamos falando de arte. Acredito
que qualquer discussão sobre o formalismo escamoteia uma questão muito mais
complexa: a construção de um discurso verbal sobre as obras de arte. A confusão
generalizada entre a arte e o discurso teórico sobre ela, cada vez mais
abundante, cada vez mais vazio e dogmático, é tão preocupante quanto a “incapacidade de perceber a infinita
proliferação que forma o tecido da obra de arte[7]. Se pudermos definir de alguma maneira a arte será somente através dessa
infinita proliferação semântica. Formas e conteúdos que deslizam sobre uma
superfície única de fita de Moebius, apontando sempre para uma falha, um vazio
por onde os sentidos se multiplicam.
Na
realidade, estamos falando de um determinado discurso sobre a arte e, como
dizia Greenberg, esse discurso é de uma vulgaridade extrema (vulgarity with a vengeance)[8]
8.
As mudanças instauradas no sistema das artes, a
partir da segunda metade do século XX, ao se abrirem para a pluralidade e romperem
com o eurocentrismo e o evolucionismo, apontaram para a criação de um circuito
que não seria mais regional ou nacional, mas global. Se o sistema da arte da
pós-modernidade atua, hoje, nesse sistema único e transnacional, os sistemas
nacionais e locais disputam espaços, ainda que subalternos. Em um determinado
território físico — a cidade de Belo Horizonte, neste caso — articulam-se os cruzamentos do sistema global, com
os sistemas nacionais e locais.
Arlindo Daibert, num texto escrito provavelmente no
final da década de 80, reivindica o reconhecimento de uma diversidade na arte
que se faz em Minas Gerais, apontando, da Juiz de Fora natal, a exclusão do
sistema de artes mineiro de quem não se enfileirou no ciclo “Guignard /os
discípulos de Guignard / Amílcar de Castro / os discípulos de Amílcar de
Castro”[9].
E conclui se perguntando: “e os pobres mineiros que nunca moraram na Capital ou
que deixaram Belo Horizonte (como Farnese de Andrade), perdem ou não têm
direito à cidadania?”[10]
Esse sistema de exclusões ressoa mais grave e
urgente no começo do século XXI quando se observa, mesmo que escamoteada, a
permanência de questões cruciais que afetam a arte de Belo Horizonte e de Minas
Gerais. Como ignorar uma espécie de elitismo criado a partir das genealogias
modernistas de origem, como fugir dos paradigmas —determinados pelos discursos
legitimadores, mas assumidos por muitos—, que determinam que a arte produzida
em Minas Gerais deve estar indissoluvelmente ligada a um certo “bem fazer”
proveniente tanto da talha barroca como da habilidade dos artesãos locais?
9.
Lido e escrito a partir do eixo
Barroco/Guignard/Neoconcretismo, o discurso sobre arte em Belo Horizonte
marginaliza qualquer produção que possa ser entendida como desviante dessa
norma. O formalismo mineiro, se
existe, parece residir na recusa a aceitar qualquer narrativa (literatices!),
qualquer referência, qualquer tradição que se desvie do legado:
Barroco/Guignard/ Neoconcretismo.
Na maioria das vezes, isso se manifesta por uma
tendência dominante para a abstração pós-pictórica ou geométrica (explorando
escassamente o conceito de geometria sensível) ou por uma aproximação tardia da
arte povera, feita, na realidade,
através do uso acrítico de materiais
pobres.
10.
Nos últimas décadas, porém, é possível detectar a
emergência, em Belo Horizonte, de grupos embrionários de artistas que se
configuram menos pela afinidade do
trabalho que por uma empatia alinhavada através dos percursos urbanos e
institucionais.
São, em geral, artistas que têm também interesses e
atuação em outras áreas do conhecimento ou da arte, o que lhes proporciona a
possibilidade de um trânsito interdisciplinar e multicultural. Dança
contemporânea, arquitetura, literatura, comunicação visual, rádio, sociologia,
música eletrônica e cinema aportam visões estrábicas que contribuem para a
construção de trabalhos cada vez mais híbridos.
Numa rede
intertextual de associações e citações, a linhagem dessa produção acumula
genealogias diversas. Jorge Luis Borges, Ítalo Calvino, Georges Perec, Clarice
Lispector ou Guimarães Rosa convivem com Marcel Duchamp, Joaquín Torres García,
Lygia Clark, Hélio Oiticica, Sophie Calle, Laurie Anderson e Pina Bausch, numa
cena múltipla que, através de redes informáticas e comunicacionais, os conecta
com um amplo espectro musical, que vai de John Cage a Arnaldo Antunes, passando
pela bossa nova, o rock nacional e a world
music.
Formados dentro da instituição, lecionando na
instituição, mas em constante debate com seus limites, trabalham a partir dos
paradigmas desconstrutores da arte contemporânea fazendo releituras irônicas e
afetivas do desenho clássico, do construtivismo, do pop, do conceitual, da
pintura dos 80, da arte do corpo. A aluvião multicultural se constitui como a
urdidura de trabalhos híbridos que exibem, numa certa preferência pela baixa
tecnologia, um desejo de intervir incisiva, porém, poeticamente, não só no
espaço urbano mas também nas relações interpessoais, se apropriando do uso da
imagem técnica e da palavra, mas não desprezando os gêneros tradicionais, para
criar espaços de profundo lirismo, pontuar situações de abjeção, de escárnio,
de alienação ou, simplesmente, de convívio gozoso.
Contudo, é interessante observar um certo
preciosismo na execução das suas propostas —os curadores e críticos paulistas
que freqüentavam a cidade na década de 80 apontavam, não sem certo desdém, para
a “elegância” e o “decorativismo” da arte mineira—,que poderia ser interpretado
como um índice residual do projeto construtivo formal do qual se afastam.
Estes artistas sabem-se na periferia de um mundo
onde quase tudo é periferia, mas não reivindicam nenhuma ancestralidade local
que os legitime, pelo contrário, nos seus trabalhos, vislumbram-se os ecos
distantes de um projeto utópico atravessado por um viés parricida.
11.
Em 1949, Mário Pedrosa, concorreu à cátedra de
Estética e História da Arte da Faculdade Nacional de Arquitetura com a tese Da Natureza Afetiva da Forma na Obra de Arte,
inspirada nas teorias da Gestalt.
Em 1996, Rodrigo Naves publica A forma difícil, ensaios sobre arte brasileira. São abordados no
livro Debret, Segall, Guignard, Volpi e Amílcar de Castro. O historiador
identifica na arte brasileira certa fragilidade, certa timidez formal que foge
aos pressupostos da arte modernista.
Em 2001, a Americas Society promove, em Nova York, a série de eventos Forma Brasil, onde apresenta um grupo de artistas, escritores e músicos brasileiros, considerado por um jornal paulista como a “seleção cultural brasileira”.
Em 2003, o MAC de Niterói abre a exposição Forma/Suporte, a partir da Coleção Sattamini, propõe uma reflexão sobre a relação entre o suporte e sua forma na construção do espaço plástico, com artistas como Abraham Palatinik, Emanuel Nassar, Franz Weissmann, Ivens Machado, Joaquim Tenreiro, Lygia Clark e Rubens Gerchman, entre outros.
Em 2004, a exposição Beyond
Geometry: Experiments in Form, 1940’s-70’s no Los Angeles County Museum (LACMA) se propõe pesquisar como, nesse
período, os artistas desenvolveram formas radicais de arte que contribuíram
para a configuração de um período social e politicamente turbulento. Nessa
mostra, a arte concreta sul-americana é confrontada com aquela de outros países num campo teórico que privilegia as
rupturas e os movimentos de
contracultura.
Ao longo dos últimos cinqüenta anos, o conceito de forma
é utilizado repetidamente, quase sempre na sua acepção de “configuração física
característica dos seres e das coisas, como decorrência da estruturação das
suas partes; formato, feitio, figura”[11]
; a primeira acepção que aparece no dicionário Houaiss.
A exposição do LACMA abre, porém, para novas reflexões ao
relacionar um determinado conceito de forma com os contextos históricos em que
ele se desenvolveu e os projetos contraculturais nos quais os artistas estavam
envolvidos.
Mario Pedrosa, imbuído dos conceitos da Gestalt, propõe a
superação da antítese subjetividade
versus objetividade através do conceito de natureza afetiva da forma,
pelo qual as qualidades fisionômicas (formais) das obras despertariam
reações afetivas no espectador[12].
12.
Para Nicolas
Bourriaud, a forma da obra contemporânea estende-se para além de sua forma material. Seus componentes
estariam sempre em processo de nascimento, pois gerariam —interminavelmente—
novas possibilidades de sentidos[13].
A forma seria, seria pois, um
traço de união, um princípio dinâmico de integração: o lugar de um “encontro
durável”[14].
Não poderíamos (ou
não deveríamos) pensar nunca mais em objetos fechados em si mesmos, legitimados
pelo peso de um estilo, de uma assinatura ou de uma cotação no mercado, mas nas
relações que estes objetos —estas formações, estas conformações, estas informações— estabelecem com os
outros objetos e com os sujeitos num jogo interminável de negociações e
agendamentos.
13.
Em Atlas, um dos seus últimos livros, Jorge
Luis Borges —já completamente cego— vê como ninguém uma obra de Claes
Oldenburg: Split Button, 1981, o botão de 4,9 m de diâmetro, de alumínio
pintado com verniz de poliuretano, instalado em Levy Park, na Universidade de
Pensilvânia, na Filadélfia.
O velho escritor,
que não conhecia quase nada de artes visuais e provavelmente nada de arte pop,
considera a obra um monumento —esse é o título do texto—, no sentido utilizado
por Foucault em Arqueologia do saber.
O Split
Button, então é, para
Borges, o monumento criado a partir da aparição súbita de uma coisa simples. O
tamanho daquele objeto vulgar, porém, necessitou ser aumentado para que essa
revelação pudesse ser compartilhada por todos.
Foi esse desejo de comunhão que impulsionou o artista a “executar o vasto e sereno círculo que
vemos nesta página e no centro de uma praça de Filadélfia”[15].
[1] Adorno, Theodor. Teoría Estética. Madrid: Taurus, 1980. p. 116.
[2] Freitas, Verlaine. Adorno & a arte contemporânea. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p.43.
[3] Ferreira, Gloria & Mello, Cecília Cotrim de. Clement Greenberg e o debate crítico. Rio de Janeiro: Funarte/Jorge Zaluar, 1997. p. 120.
[4] Krauss apud Ferreira, p.121.
[5] Krauss apud Ferreira, p.165.
[6] Bois apud Ferreira, p.248.
[7] Bois apud Ferreira, p.247.
[8] Ferreira, p.120.
[9] Daibert,
Arlindo. Caderno de Escritos.
Organização Julio Castagnon Guimarães. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1995.
p.167.
[10] Daibert,
Arlindo. Caderno de Escritos. Organização
Julio Castagnon Guimarães. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1995. p.167.
[11] Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 1.0. Sublinhado do autor.
[12] Cf. PEDROSA, Mario. Forma e percepção estética. Org. Arantes, Otília Fiori. São Paulo, EDUSP, 1997.
[13] Cf. Bourriaud, Nicolas. Esthétique Relationnelle. Paris : Presses du réel, 1998. p.10
e ss.
[14] Bourriaud, Nicolas. Esthétique
Relationnelle. Paris : Presses du réel, 1998. p.12.
[15] Borges, Jorge Luis. Obras Completas. Tomo III - 1975-1985. Buenos Aires: Emecé, 1991. p.123.