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Grupo:
Marina
Paulino Bylaardt
Marcela da Costa Ferreira
Xavier Beve
Regeane Lopes de Carvalho
Ana Virgínia Cândio
Audrey Melgaço Teixeira
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INTRODUÇÃO
Falar
da Escultura, Pintura e suas técnicas é extremamente
apaixonante, mas complexo, em função da diversificação
da temática.
O que se tenta é uma retrospectiva na linha do tempo.
Tentando assim reinterpretá-la no presente.
H. R. Jaus alerta-nos que (...) Ao Spleen que percebe as
coisas desprovidas de sua aura, ao olhar alegórico,
que vê a terra recaída no estado de pura
e simples natureza, opõe-se uma experiência
complementar, não por restituir às coisas
sua aura natural, mas para lhes dar uma outra, a experiência
da lembrança.
ARTE E ARTESANATO - Definições Enciclopédicas:
ARTE
- do latim, ars, artis, maneira de fazer uma coisa segundo
as regras, habilidades. Ideal de beleza nas obras humanas.
. Todo objeto que manifesta uma preocupação
estética, que se refere às obras de pintura,
escultura, gravura, etc...
. Conjunto das atividades que têm por objetivo trazer
uma dimensão estética para o cotidiano.
. Criação de objetos ou de organização
específicas destinadas a produzir no homem um estado
particular de sensibilidade mais ou menos ligado ao prazer
estético.
ARTESANATO
- ofício de função utilitária
lúdica ou mágica, praticada por um artesão;
método de trabalho de um artesão.
ARTISTA
- pessoa que exerce profissionalmente qualquer uma das artes,
em nível superior ao do artesanato, uma das artes
aplicadas. Pessoa exímia no desempenho do seu ofício,
que tem senso de beleza e é capaz de criar artisticamente:
uma sensibilidade de artista.
ARTÍSTICO
- que é feito com arte, com preocupação
de beleza.
ARTESÃO
- indivíduo que trabalha por conta própria
em ofício manual, sozinho ou com auxílio dos
membros da família e alguns companheiros.
ARTESANAL
- que é feito através de meios rudimentares,
às vezes sem qualquer método que apresenta
feitura grosseira.
A arte
vai muito além das definições frias
de dicionários e enciclopédias. O homem em
todas as épocas tem trazido uma constante necessidade
de expressar-se, de deixar para posteridade um reflexo de
sua personalidade, deixando marcas de sua passagem pela
vida e pelo mundo.
Consciente ou não, tal necessidade de expressão
artística serve como documentação da
própria personalidade do artista, de suas reações
perante o mundo, de suas emoções e sentimentos.
A obra de arte criada em qualquer época, também
nos fala da vida, do pensamento, dos hábitos e costumes
da fase histórica durante a qual passou a existir.
Pode-se entender como Arte - reflexo das ações
do homem no tempo e no espaço - fruto da cultura
de cada povo, testemunho fiel dos condicionamentos sociais,
políticos, religiosos, econômicos e filosóficos
de cada época. Registro do Aqui e do Agora. A arte
existe onde o homem está.
Devemos saber distinguir artes, artesanato, folclore. Saber
quando as manifestações de cultura são
espontâneas ou eruditas resultante de um aprendizado
dirigido e popular ou popularesco executado num contexto
comercial e de consumo.
A característica principal do artesanato folclórico
é a produção de um efeito físico
de sentido predominantemente utilitário. No seu domínio
incluem-se objetos e artefatos de uso diversificado, executados
manualmente por uma pessoa ou por um grupo de pessoas.
Esses objetos contêm em si marcas de uma cultura determinada,
e, deste modo, atestam a ligação do homem
com o meio social em que vive.
Há uma integração Homem/Meio Ambiente
identificável no próprio tipo de matéria-prima
utilizada: madeira, barro (cerâmica), fibras animais
vegetais (cestarias).
A habilidade dos artesãos recicla, para novos usos,
restos de metal, latas, peças usadas de automóvel.
As latas, por exemplo, transformaram-se em lamparinas e
outros tipos de luminárias, janelas, copos; galhos
de madeira, transformados em esculturas, etc...
Produtos industriais são incorporados a uma cultura
originária. A renda de bilro, tradicionalmente feita
com fio de algodão produzido em roca, pode ser feita
de linha industrializada para costura.
As mãos são o verdadeiro instrumento do artesão
ou artista, com freqüência auxiliadas por máquinas
e ferramentas, elas próprias de produto artesanal:
a prensa de parafuso, para apertar o tipiti e extrair a
água da mandioca, ou a moenda de tração
animal ou manual, para extrair o caldo de cana ou ainda
o pilão, para pilar milho ou descascar arroz.
Exemplos de artesanato com função lúdica.
Peças de cerâmica de Caruaru. A confecção
ocupa centenas de famílias de artesão.
São geralmente pintadas com tintas industrializadas
e reproduzem cenas e tipos populares regionais. O artesanato
com função mágica ou devocional é
ilustrado pelos ex-votos feitos de barro ou de madeira,
artefatos em pedra ou pintados, etc...
Rumo à arte pelo artesanato
Não
existe arte bem-sucedida sem artesania pelo menos enquanto
a palavra artesania significar habilidade no
emprego de materiais e instrumentos. Existem departamentos
de arte, departamentos de artesanato, artesanato em departamentos
de arte e, muito mais claramente, arte em departamentos
de artesanato.
No mundo contemporâneo, todo grande departamento de
arte contém boa quantidade de equipamentos, mais
comumente encontrados em oficinas de artesanato. Conjuntos
de instrumentos de marcenaria, equipamentos para todos os
tipos de solda, máquinas de costura e teares. Como
também equipamentos de ponta, associados às
artes. Fornos para cerâmica e esmaltagem, malaxadores
de argila, grande variedade de processos de impressão,
câmaras escuras inteiramente equipadas - todos considerados
necessidades básicas para um curso de arte abrangente.
Entretanto, não existe nenhuma base lógica
específica e identificável para a Arte/Artesanato
e suas diferenças.
Temos que olhar bem de perto para arte/artefato, para verificar
o que realmente está sendo feito (ou foi feito) e
o que, espera que disso resulte ou resultou. Segundo Henry
Pluckrose Nenhuma criança viverá plenamente
numa sociedade tecnológica moderna se não
tiver recebido introvisões dos processos básicos
do gênero humano. Sustenta ainda que artes e
artesanatos registram os progressos do homem no rumo da
civilização.
Herbert Read também esperava grandes coisas: os
artesanatos, mais do que qualquer outra forma de educação,
podem transformar nosso meio social como uma revolta instintiva
contra os produtos inferiores de nossas fábricas,
eles trazem de pronto ao lar uma corrente subterrânea
de bom gosto em matéria de móveis, roupas
e utensílios.
Com certeza o elemento artesanal pode ser incorporado a
qualquer estratégia básica da arte.
Com as transformações das artes cultas na
segunda metade do século XX, concluímos que
a arte já não pode ser apresentada como inútil
nem gratuita. É produzida dentro de um campo atravessado
por redes de dependências que a vinculam ao mercado,
às indústrias culturais e a esses referentes
primitivos e populares que são também
a fonte de que se nutre o artesanal. Como muito bem explica
CANCLINI, em Culturas Híbridas, se talvez a
arte nunca chegou a ser plenamente Kantiana - finalidade
sem fim, palco da gratuidade - agora seu paralelismo com
o artesanato ou a arte popular obriga a repensar seus processos
equivalentes nas sociedades contemporâneas, suas desconexões
e seus cruzamentos.
Vários pesquisadores não aceitam divisões.
Os antropólogos, folcloristas, historiadores da arte
desejam que se reconheça os méritos existentes
fora das coleções dos museus, galerias de
artes, etc... Pois existe arte nas cerâmicas, nos
tecidos e retábulos populares com tanta criatividade
e beleza tanto quanto na Arte Culta.
CANCLINI também aponta, em Culturas Híbridas,
que A rigor, o processo de homogeneização
das culturas autóctones da América começou
muito antes do rádio e da televisão: nas operações
etnocidas da conquista e da colonização, na
cristianização violenta de grupos com religiões
diversas - durante a formação dos Estados
Nacionais - na escolarização monolíngue
e na organização colonial ou moderna do espaço
urbano.
Nem sequer pode-se atribuir aos meios eletrônicos
a origem da massificação das culturas populares.
Concebeu-se o massivo como um campo recortável
centro da estrutura social, como uma lógica intrínseca,
com a que tiveram a literatura e a arte até meados
do século XX: uma subcultura determinada pela posição
de seus agentes e pela extensão de seus públicos.
Em função do crescimento súbito de
leitores de jornais e revistas, da audiência de rádio
e televisão.
Não podemos deixar de citar no mundo contemporâneo
os efeitos da globalização, as políticas
perversas e suas conseqüências. A eterna colonização
em que vive os países de terceiro mundo, dentre outros.
O
início de tudo
Foi numa caverna que tudo começou, local onde o homem
morava, criando sua primeira forma de arte, que muita gente
acha que foi a arte de contar histórias. Há
também quem acredita que a arte mais antiga do mundo
é a dança. É bem provável que
nosso ancestral tenha se manifestado pela dança para
pedir proteção aos deuses, para agradecer
por uma caçada ou para expressar alegria. Não
sabemos, pode até ser. O que sabemos é que
a pintura descoberta em cavernas da pré-história
é a primeira forma de arte criada pelo homem que
atravessou milênios e chegou até nós.
Pinturas com um certo caráter mágico.
Imagens de animais para tirar deles o que acreditava ser
o espírito vital e depois poder caçá-los,
na realidade acreditavam que simbolicamente estavam matando
este animal, o fato é que muitas dessas figuras estão
atravessadas por uma lança. Depois então,
saíam para caçar. O fato é que esses
pintores de cavernas foram-se aperfeiçoando. Existem
figuras que muitos nos impressionam pela expressão
de dor, pela sensação de movimento, pelas
formas e pelas cores.
Sabemos que a arte nasceu no interior de cavernas escuras
há milhões de anos, modestas e cheias de vida,
tão cheia de vida que ainda hoje está aí,
renovando-se a cada instante desafiando-nos com seu mistério
e nos dando muito prazer.
As 3 dimensões da escultura
Existem outras artes que lidam com imagens, mas só
uma que apresenta as imagens em 3 dimensões: altura,
largura e relevo. É a escultura, que, com a pintura,
também surgiu nas cavernas.
Há exemplos de escultura primitiva enfeitando utensílios
de pedra ou de osso. No entanto, o testemunho mais significativo
dessa arte, nas mãos de nossos antepassados, é
uma série de estatuetas com evidentes características
femininas. Trata-se de figurinhas pequenas, que em geral
cabem na palma da mão. Deram-lhe o nome de Vênus,
Deusa dos antigos romanos que favorecia o amor.
Mas parece que a Vênus das cavernas, representava
basicamente a mãe, a fertilidade. Tem seios fartos,
nádegas grandes e traços faciais meio imprecisos.
As estatuetas pré-históricas são geralmente
de pedra, osso ou chifre. Várias foram encontradas
na Europa, sendo a mais famosa a Vênus de Willendorf,
cidade da Áustria. Feita de pedra e mediando 11 cm
de altura, está hoje no museu de história
natural de Viena. Também como a pintura, a escultura
pode ser figurativa quando representa criaturas e objetos
da realidade, ou abstrata quando expressa idéias
ou sentimentos do escultor. Todas essas artes que lidam
com imagens são As Artes Plásticas e são
encontradas em todo o mundo.
Pensemos
apenas no reconforto em saber que, num estágio ainda
elementar da economia e da técnica, milhares de anos
antes da agricultura, a metalurgia e a escrita propiciarem
o nascimento das civilizações da antigüidade,
o homem tenha sabido encontrar meios de exprimir a plenitude
de seu pensamento artístico e, portanto, a plenitude
de sua humanidade. (André Lesoi - Courhan
- professor de pré-história do College de
France, diretor do Instituto de Etnologia de Paris)
Até o presente momento, no que diz respeito à
pré-história, temos acreditado encontrar na
pintura rupestre o domínio mesmo do homem com a sua
volúpia intensa de viver as mesmas coisas e, ao contrário,
nas civilizações o desejo de criar novas formas
e novos significados. Diante do abismo em que se encontram
as ciências sociais, com as suas formulações
quantitativas, que vão até o absurdo de pretender
medir sentimentos de origem e natureza desconhecidas, simplesmente
respondemos que as crenças, os mitos, a magia, o
simbolismo - para dar apenas alguns exemplos - não
são mensuráveis e que o homem é aquilo
que escapa ao número.
Para o antropólogo (não se trata do antropólogo
físico) tudo o que se mede é de certa forma
inumano, tudo o que a medida por medida foi arrancado ao
homem, mas não o explica.
A antropologia procura abarcar o ser humano a partir das
bases de sua fenomenologia vital, procurando descobrir o
conteúdo de suas intenções nas marcas
que ele imprimiu no cosmos, no tempo e no espaço
ecológico. É por isto que o antropólogo
sente uma viva simpatia pela arqueologia pré-histórica,
a etnologia, a parapsicologia e futurologia ou, em outras
palavras, pelas origens, natureza e destino do homem. Seu
modo de conhecimento do homem implica na objetividade e
na apreensão poética do seu objeto.
As Pinturas Rupestres no Brasil
As primeiras notícias sobre pinturas e arte rupestre
no Brasil remontam ao século XVI, quando em 1598
o aventureiro Capitão-mor Feliciano Coelho, adentrou
o sertão brasileiro à procura de riquezas
minerais e acabou por desvendar o tesouro rupestre que Minas
Gerais escondia.
O tema de maior freqüência nessas pinturas versa
sobre animais, mas aqui e ali encontra-se a figura de um
homem caçando, pescando ou colhendo mel de abelhas.
Algumas poderiam até ser consideradas mágico-cerimoniais,
quando mostram pessoas mascaradas ou fantasmagóricas.
Ou podem ser simplesmente denominadas de totêmica
ou totemizadas, quando fazem referência ao mundo animal
ou vegetal. Podem aparecer isoladamente ou em grupo, compondo
cenas cuja interpretação é de cada
um. É claro que nem todos os pesquisadores e estudiosos
pensam a mesma coisa, por isso existem muitas discussões
a respeito destes temas e também sobre estes locais,
onde as pinturas foram registradas, se não seriam
destinados a reuniões de natureza mágico-religiosa
ou seja, relativas a fé e a crendice do homem pré-histórico.
Em alguns casos, o tema abordado pelas pinturas rupestres
é mais evidente, como por exemplo a Cena do
Parto na Lapa do Gentio Serra do Cipó.
- Nas cavernas de Sucupira em Santana do Riacho cenas
que evocam a fertilidade. - Na Lapa do Ballet (Matozinhos)
observações astronômicas
- Nos abrigos de Montalvânia no Curral de Pedras
(Jequitaí) - No abrigo de Porco Preto (Matozinhos)
e tantos outros.
Formas de elaboração
Técnicas
e temáticas:
Elas foram feitas à base de produtos corantes minerais,
largamente encontrados na natureza com grande variedade
de tons. A técnica de aplicação é
das mais rudimentares, sendo que, os painéis eram
trabalhados com o auxílio de pincéis de fibra
macerada, usando o óxido de ferro das rochas e outros
minerais, às vezes misturando-o com gordura animal
para fixar melhor a cor. Usavam o ocre avermelhado, como
também o urucum, e outros vegetais. E o carvão.
Aplicações de matrizes tais como carimbos
ou impressões manuais. O grafismo, desenhos e gravações
que formavam a outra categoria dos murais rupestres se apresentam
pela simples aplicação direta da matéria
prima na rocha, como se fosse uma escrita de giz.
No norte de Minas Gerais foram encontrados vários
painéis de passado bem recente. Além disso,
existem as gravuras em baixo relevo, técnica bastante
comum no Brasil e que merecem tratamento especial, já
que são encontrados nos pisos rochosos das grutas
e abrigos nas paredes verticais e blocos junto dos rios,
espalhados por toda Minas Gerais e norte do Brasil onde
se concentra a maior parte.
Por
isso elas foram divididas em 3 grandes unidades estilísticas:
Planalto;
São Francisco;
Sumidouro.
Tradição Planalto
Agrupa um grande número de sítios em Minas
Gerais, inclusive os da região de Lagoa Santa, em
que predominam os temas zoomórficos e desenhos geométricos,
em geral de uma só cor como acontece com os Abrigos
de Samambaia e Santana do Riacho, Abrigo de Cerca Grande,
Alto Jequitinhonha e Cabral.
Tradição São Francisco
Ocorre o oposto. Elas se concentram quase que somente no
norte do Estado e lá predominam as figuras geométricas,
as figuras naturalistas que são aves, ofídios,
répteis, armas, representações de árvores,
plantações, alimentos e as figuras para-naturalistas
que são as representações de Sóis,
Luas, Pés e Mãos. São normalmente bicolores
ou policrômicas.
Tradição Sumidouro
Predominam os bastonetes ou pequenos traços de uma
ou várias cores alternadas, resultando num sentido
linear rítmico. Quanto à coloração,
as pinturas rupestres não são muito variadas,
pois, em geral, usava-se a matéria-prima local. Observa-se
repetidamente o emprego de apenas 5 cores em todo o conjunto
pictográfico existente em Minas Gerais e também
em outras partes do mundo: vermelho, castanho, preto, amarelo
e branco extraídas da composição de
diversas substâncias vegetais como na Lapa do Gentio
na Serra do Cipó, onde se nota a coloração
avermelhada. Mas, faltam estudos físico-químico
das tantas utilizadas na Pré-história para
se constatar esta hipótese.
Pela temática dos painéis, pela disposição
em que as figuras aparecem expostas e pelas suposições
de figuras feitas pelos homens pré-históricos
de várias culturas, que sobrepunham suas obras às
obras de seus predecessores - As figuras que estão
por cima são mais recentes que as de baixo, mas não
se sabe a diferença é de horas ou de milênios.
Segundo estudos feitos pela UFMG, com escavadores em Santana
do Riacho, tornou-se possível determinar a idade
mínima e máxima de várias pinturas
realizadas em blocos caídos do teto, e cujas características
estilísticas permitiam compará-las com outras
obras vizinhas. Demonstrou-se, então, que em alguns
lugares elas têm no mínimo 4.000 anos e em
outros locais, provavelmente mais de 7.000 anos. Como por
exemplo a Lapa dos Desenhos que mostra rico painel com enormes
plantações de milho. Ora, sabe-se que as representações
alusivas à agricultura só foram introduzidas
em Minas Gerais por volta dos 4.000 anos, portanto, mais
recentes. Pode-se concluir que a Arte Pictórica Parietal
ou Rupestre iniciou-se num período bem remoto com
os caçadores coletores e teve seqüência
com os povos agricultores, manifestando-se também
em tempos históricos nos quilombos.
Contudo, podemos afirmar também que arte/artesanato
- artista/artesão são formas do homem se expressar,
cada povo dentro de sua realidade, dentro de seu tempo,
e de sua cultura.
(...) Cultura são maneiras de pensar, sentir, crer
e fazer, criadas e desenvolvidas por uma sociedade para
resolver os problemas da vida associativa. Tais maneiras
incluíam as atividades econômicas, a tecnologia
rudimentar, as práticas religiosas, a moral, a magia,
as artes, a mitologia, a música, as práticas
Shamanísticas, de curandeirismo e outras.
Nosso ponto de vista é o de que a arte é comunicação
e, sem os mecanismos de comunicação, evidentemente,
a cultura não poderia ter sido transmitida, pelos
menos em parte, as gerações seguintes. Daí
a importância prioritária que o etnólogo
C. Levis-Strauss atribui à linguagem.
As experiências sobre pinturas de abrigos e cavernas
e com outras formas de pinturas de indígenas contemporâneos
tem levado fortemente os pesquisadores a crerem que às
atividades econômicas, para terem eficácia,
necessitam desse ritual prévio que comunica muita
coisa: a pintura. É a infra-estrutura servindo-se
a superestrutura como forma de perenidade. É a interdependência
da cultura espiritual e a cultura material,
ou seja, o autogoverno da cultura.
Cada tipo de economia carrega consigo um sistema de signos
que lhe é próprio. Assim, nos é impossível
conceber, funcionando como todo vigor e autenticidade em
uma economia industrializada, meios de comunicação
que venham impregnados de mito, práticas de magia,
crenças anímicas ou totêmicas, próprios
de uma tribo de caçadores. Uma economia de caça,
por exemplo, teria que manipular o totemismo
e praticar a magia da caça como superestruturas necessárias
à sobrevivência do grupo; desde que não
existe a escrita, é um excelente veículo para
isto.
Já uma sociedade industrializada não pode
conceber um totem animal e o antropomorfiza. A realidade
que o homem moderno conhece é a sua própria.
A magia da caça e da chuva e tantas outras são
substituídas pouco a pouco pela ciência.
Arte
Brasileira
Entre
1500 - ano em que pela primeira vez uma esquadra portuguesa
tocou o solo brasileiro - até 1530, o Brasil não
representou para Metrópole senão um grande
vazio, um continente oco e infinito, difícil de preencher,
especialmente num momento em que o esforço marítimo
de Portugal voltava-se para o lucrativo comércio
com o oriente. Assim, por trinta anos, esparsas expedições
do Reino limitavam-se a patrulhar a costa, fincar no litoral
marcos com armas do rei e recolher próximo às
praias carregamentos de Pau-Brasil, madeira valiosa na Europa
por suas propriedades corantes.
Contudo, há uma aura de misticismo que envolve a
cultura dos primeiros habitantes, o que não poderia
deixar de encantar quem chegava ao Brasil.
Uma expedição colonizadora, enviada em 1532,
recomendou ao rei a divisão da colônia em faixas
de terra (as capitanias) que seriam cedidas, em caráter
perpétuo e hereditário, a particulares portugueses
que contassem com recursos para explorá-las.
Com os donatários e governadores, começaram
a chegar ao Brasil os primeiros povoadores europeus: heterogênea
mistura de aventureiros, escravos, cadetes de famílias
nobres, órfãos em idade de contrair casamento,
africanos Benim (hábeis ferreiros), religiosos, serviçais,
artilheiros, mercenários e pessoas que preferiam
manter-se longe dos juízes do Reino ou de representantes
da recém-introduzida Inquisição.
A estes voluntários somavam-se os degredados, criminosos
aos quais, a justiça portuguesa inflingira a cruel
pena de serem expulsos para o Brasil.
Essa eclética povoação marcou o início
da transposição de uma cultura européia
para o Brasil, e já por adaptá-la às
condições locais, também o começo
de uma cultura propriamente brasileira.
Não se tratava da primeira cultura a se desenvolver
em terras do Brasil. Enquanto os portugueses ainda formavam
compactos e cautelosos grupos para o reconhecimento das
praias desconhecidas, artesãos indígenas poliam
machados cerimoniais de sílex, de formas tão
funcionais como as de Bauhaus, e límpidas como as
de Brancusi, músicos e dançarinos recobertos
de palha trançadas, levando máscaras de fibra
e fantásticos cocares de penas com brilho acrílico,
rememoravam os mitos do dilúvio e da criação;
oleiros moldavam vasos para depois decorá-los com
geometrias labirínticas (como na ilha do Marajó)
ou Igaçabas (urnas funerárias), decorados
com uma bicharada fantástica, como na região
de Santarém e do Rio Trombetas.
Pelo menos quatro grandes tradições culturais
indígenas merecem destaque: a de Marajó (da
qual é mais conhecida a Marajoara, última
das cinco fases arqueológica da ilha), as de Cunani
e Manacá (ambas no Amapá) e a cerâmica
zoomorfa e antropomorfa de Santarém (Pará),
talvez a mais criativa de todas, pois seus artistas jamais
repetiam o modelo anterior, transformando a fauna amazônica
num sonho intricado e barroco de animais e gente
que se entrelaçavam no barro cozido.
Artes que os europeus encaravam como brincadeiras de povos
infantis - por exemplo, a pintura corporal - continham alguns
dos sentidos mais profundos da vida indígena.
Para os europeus da época colonial, contudo, os povos
primitivos não apenas não possuíam
nem arte nem cultura, como inclusive era improvável
que possuíssem alma.
Os jesuítas tiveram sérios problemas com os
colonos para garantir ao menos a existência de alma
nos indígenas, mas, quanto ao resto também
para eles os índios começavam com a chegada
dos cristãos. Tudo tinha que lhes ser ensinados.
E sempre que os missionários aprendiam algo com os
nativos era apenas para melhor europeizá-los.
Se o Padre José de Anchieta compilou uma gramática
indígena, foi porque, sem falar-lhes a língua,
seria difícil cristianizá-los.
A Arquitetura Militar e Presença Religiosa
Nos
séculos XVI e XVII, se por um lado a preocupação
das autoridades portuguesas era ensinar aos índios,
por outro era não permitir que os europeus imigrados
esquecessem sua própria cultura.
A primeira Arte a surgir no Brasil foi a arquitetura, e
com dois tipos de edificações: as fortalezas
e as construções religiosas.
As construções não militares desde
logo estiveram submetidas à aprovação
da Ordem de Cristo (vale dizer, do próprio rei que
era o grão Mestre da Ordem), e além disso
deviam seguir os rígidos princípios das Ordens
Religiosas a que estivessem vinculadas.
Assim, a arquitetura religiosas, como também o entalhe,
a pintura e a música do período permaneceram
literalmente portugueses. Durante muito tempo, as igrejas
foram enviadas, pedra por pedra, de Portugal e apenas montadas
no Brasil por arquitetos locais. A transposição
dessa arte importada esteve a cargo das ordens religiosas
dos Jesuítas, beneditinos e franciscanos.
Os Jesuítas, no Brasil desde 1549, cobriam o Brasil
com suas igrejas, seminários e escolas de catequese
e de artes e ofícios, que ia da Amazônia ao
Rio Grande do Sul.
Instalados na Colônia, os irmãos escultores,
entalhadores, arquitetos e pintores fizeram arte para o
povo exatamente como na Metrópole e na Índia.
Dentre os artistas membros da companhia de Jesus, valeria
a pena destacar:
Manoel Álvares - pintor, que passou pelo Brasil em
1560.
Belchior de Paulo (1554 - 1616) que nos últimos trinta
anos de sua vida trabalhou como frei itinerante, executando
pinturas em Pernambuco, Rio, Santos e São Paulo,
onde pintou uma tela do fundador da cidade, padre José
de Anchieta.
O Francês Carlos de Belleville (1652 - 1750), que
pintou o teto da igreja de Belém da Cachoeira.
O holandês Bathazar de Campos (1614 - 1687), autor
de Uma Vida de Cristo a ornamentou a igreja de São
Francisco Xavier, em Belém do Pará.
Na mesma igreja trabalhou o tirolês João Xavier
Traer (1668 - 1737), escultor do púlpito;
E ainda em Belém o francês João de Almeida
(1635 - 1679) construiu vários e artísticos
altares.
Nas outras ordens religiosas, a contribuição
beneditina deu-se principalmente no campo da escultura e
pintura. Foram beneditinos os dois principais estatuários
do século XVII - Frei Agostinho da Piedade (? - 1661),
artista erudito do qual restam cerca de trinta trabalhos,
e seu aluno Frei Agostinho de Jesus, nascido no Rio de Janeiro
em data incerta (1600 - 1610) - É o primeiro artista
nascido no Brasil de que se tem notícia.
- Pintura: - Frei Ricardo do Pilar (? - 1700), alemão
autor do painel de N. Senhora dos Martírios, que
se encontra no mosteiro de São Bento (RJ).
Frei Domingos da Conceição (1643 - 1718) pintor,
escultor e entalhador que criou os portões de entrada
do convento, o coro, as cadeiras, o retábulo do altar-mor
e desenhou toda a talha. Em Olinda, realizou o Senhor Morto
e o Senhor Crucificado para o Monteiro de São Bento
local.
Os Franciscanos
ficaram restritos aos seus conventos. O primeiro deles,
N. Sra. Das Neves, em Olinda, data de 1585. Apenas mais
sete conventos da ordem havia sido construídos no
país um século depois.
Estilos nos Séculos XVI, XVII e XVIII
Sob
a vigilância portuguesa, seria de se supor que os
primeiros indícios de brasilidade na cultura e nas
artes ficassem restritos ao nível popular e folclórico.
Contudo, mesmo sob o evidente lusitanismo, surgia um certo
localismo inevitável.
O barroco, extremamente decorativo, prestava-se particularmente
à mestiçagem. Bastava permitir que os entalhadores
locais cuidassem dos detalhes (a própria carne a
revestir o esqueleto do edifício barroco).
Os jesuítas não viam por que opor-se às
tendências locais, e até apreciavam o pendor
para o exuberante, o fantástico e o alusivo, visíveis
na decoração excessiva e pesada a que propendiam
as tendências locais.
Os jesuítas acabaram por contribuir para tal localismo,
tanto pela aprovação implícita quanto
pela execução pessoal de projetos, pinturas
e entalhes.
A arquitetura bandeirante foi, desde o início, diferente
da litorânea.
Na falta de pedras (que com o barro ou a cal constituía
a matéria-prima das construções do
litoral) os paulistas utilizavam adobe, ripas de palmito
e taipas de pilão.
(...) Casas bandeirantes - uma arquitetura serena,
mais moura que portuguesa. Mário de Andrade.
(...) Nasceu bem cedo a arte em nosso país. Artistas,
aliás, foi o índio que nunca foi, como há
quem pense, um indivíduo boçal, indiferente
às manifestações do sentimento bem
pelo contrário, o índio sabia apreciar o que
era belo, gostava da música e do canto; a dança
figurava em todas as suas festas e cerimônias, os
grandes oradores, isto é, os que falavam bem eram
respeitados, os que sabiam trabalhar o barro eram admirados...
Existem até versos feitos por índios. Poesia
rústica, primitiva, bárbara, sem dúvida,
mas poesia.
Os viajantes e naturalistas Spix e Martius, que percorreram
o Brasil, recolheram fragmentos de poesia indígena.
Foi na cerâmica a maior revelação de
suas aptidões artísticas. Na ilha de Marajó,
foram encontradas diferentes peças de cerâmicas
coloridas com desenhos de animais. Muitas dessas peças
podem ser vistas no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista,
no Rio de Janeiro.
Maurício de Nassau, governador do Brasil - holandês,
trouxe alguns artistas como Franz Post e Van Eckhout, que
pintaram numerosos quadros, tendo como tema a natureza,
os índios, as praias, o mar, os engenhos, os canaviais,
as aves, os animais, quadros que hoje estão em diferentes
museus da Europa ou com colecionadores.
O professor Argeu Guimarães, em sua obra As
Artes Plásticas no Brasil, considera esses
artistas holandeses como avos da pintura brasileira.
Muitos artistas ficaram desconhecidos ou inteiramente esquecidos.
O primeiro pintor baiano talvez tenha sido o frade Carmelita
Eusébio de Matos, tendo telas com temas religiosos.
Mas foi José Joaquim da Rocha, cujo local de nascimento
não se tem certeza, que foi o fundador e mestre da
escola da pintura na Bahia.
Antônio Joaquim Franco Velasco, que viveu entre 1780
e 1833, é outro grande vulto da pintura baiana.
Diz o professor Carlos Rubens que imaginosos e hábeis,
trabalharam o jacarandá toda uma viva palpitação
de formas estilizadas, que enriqueceram velhos lares coloniais
e opulentaram templos que são o orgulho da arte religiosa.
O país todo - disse o historiador Pedro Calmon
- se encheu de majestosas mobílias floridas pelas
suas mãos hábeis. E ainda sobram os templos
forrados dos silhares ao teto de talha flocada e leve, que
estilizaram, transformando numa espuma dourada e aérea
os rijos tabuados.
Nisso o que a Bahia tem de melhor é o produto do
desenho e da perícia dos seus artesãos humildes.
Realizavam o minucioso milagre do seu trabalho sem outra
influência fora do meio mesquinho em que floresceram.
Deixaram monumentos que dão ao Brasil personalidade
e lugar, no catálogo das artes universais e discípulos
que mantêm acesa a lâmpada encantada.
O artista Chagas, o Cabra, assim chamado até hoje
pois não se sabe o seu verdadeiro nome, foi o maior
escultor em madeira da Bahia.
São dele as seguintes obras Nossa Senhora. das Dores,
São João e Madalena, o monumental grupo da
ordem terceira do Carmo, São Benedito, na matriz
de SantAna, Senhora da Redenção na Igreja
do Corpo Santo, Nossa Senhora do Monte do Carmo, o Senhor
dos Passos existente em Santa Catarina.
Bento Sabino dos Reis (entre 1786 e 1848), que também
não saiu da temática religiosa. Talhou - Senhora
da Piedade, no Convento de São Francisco e São
José, e São João, em Salvador. Divina
Pastoura, em Alagoinhas, São Francisco de Paula,
São Francisco de Assis, a Via Sacra, e um Senhor
dos Passos dos Humildes.
Na Arte Contemporânea da Bahia não podemos
deixar de citar Presciliano Silva, que, inclusive estudou
na Europa e que fez todos os gêneros de pintura, notadamente
reproduções das igrejas baianas, dando destaque
ao interior das mesmas.
O que se vê no Brasil, são páginas vivas
da nossa História, talhadas na pedra, esculpidas
na madeira, impressas em telas, em cores vivas, vistosas.
No Rio de Janeiro, no Mosteiro de são Bento, é
um verdadeiro museu de arte, com suas esculturas, pinturas,
assim referido por Araújo Viana.
...A escultura de Ornatos, principal riqueza artística
da Igreja de São Bento, pode ser estudada por partes
e qualquer delas daria margens para muito dizer, tais os
resultados da espontaneidade fecunda e imaginação
criadora; tais os efeitos da plástica contornada,
figurada, simbólica, folheada, floreada e concheada,
obedecendo a talha, ora a movimentos acelerados, ora uniformes,
ora tudo se dispondo em linhas discretas e tranqüilas.
Não podemos deixar de citar no Mosteiro de São
Bento, Frei Domingos da Silva, autor, entre outras obras,
do crucifixo que se encontra no coro.
José da Conceição e Simão da
Cunha, também artistas coloniais que trabalharam
na talha decorativa da nave e José de Oliveira que
pintou os painéis da capela de relíquias do
Mosteiro. Alguns historiadores afirmam que o pintor foi
mandado ao reino para aprender com os artistas de lá,
porque só assim seria possível a revelação
das qualidades excepcionais que se nota em seus painéis.
O autor Araújo Viana diz que ele foi discípulo
de Frei Ricardo, tendo excedido o mestre. Deixou registrado
tão grande talento no retábulo da igreja da
ordem terceira de São Francisco da Penitência,
no Rio de Janeiro.
Manuel da Cunha, filho de português e de uma africana,
escrava da família do Cônego Januário
da Cunha Barbosa, tendo demonstrado inclinação
para a pintura, assim que se libertou foi para Lisboa para
se aperfeiçoar conseguindo tornar-se um grande artista.
Retornando ao Rio de Janeiro, aprimorou-se com João
de Souza, com quem pintou todos os painéis da Igreja
dos Carmelitas.
Fez também a pintura do teto da capela do Senhor
dos Passos, na mesma igreja. Ensinou desenho e pintou casas
particulares.
José Leandro de Carvalho - pintor predileto de Dom
João VI. Os melhores retratos que existem de D. João
VI são devidos a esse artista, estando no Convento
de Santo Antônio o melhor de todos.
Ordem terceira de São Francisco da Penitência,
cujas obras foram concluídas em 1773 e que é,
interiormente, esplendorosa. O entalhamento e a douração
das paredes e do altar, onde se vê o douramento em
toda parte. Sua execução, realizada no século
XVIII, foi utilizado ouro de Minas Gerais, sendo o Laminado
feito em Portugal. O teto da nave ostenta painel feito por
José de Oliveira, simbolizando a apoteose de São
Francisco.
No altar-mor vê-se o Cristo crucificado, tendo São
Francisco ajoelhado aos pés da Cruz. Todo o mobiliário
da igreja é feito de jacarandá.
Mestre Valentim
Não
se tem certeza, até hoje, a respeito do lugar e data
de nascimento de Valentim da Fonseca e Silva, que foi a
grande figura da escultura colonial no Rio de Janeiro.
Presume-se que mestre Valentim seria filho de um fidalgo
português, contratador dos diamantes, cargo oficial,
o que faz supor importância e riqueza, e de uma escrava
chamada Isabel. Alguns historiadores citam que Valentim
foi criança para Portugal, regressando já
homem. Iniciando no Rio de Janeiro sua intensa atividade
artística. Segundo a obra O Rio de Janeiro,
de 1877 do historiador Moreira Azevedo, o mestre teria falecido
a 1º de março de 1813, tendo sido sepultado
na igreja do Rosário.
Realizou várias obras espalhadas por todo Rio de
Janeiro.
Igreja do Carmo - construção iniciada em 1770.
Os portais barrocos foram feitos pelo mestre, como também
a Capela do Noviciado, cuja a construção data
de 1772 e é de grande beleza. A professora Nair Belo,
que estudou a obra do mestre Valentim, declara que toda
a obra talhada da capela foi executada pelo artista, inclusive
o altar-mor e o altar lateral.
Conforme o relato da revista do ESPHAN, de autoria de Nair
Belo.
(...) Da mesma forma que na igreja do Carmo sabia-se que
Valentim trabalhava na São Francisco de Paula. Conforme
declara Moreira de Azevedo, que foi o primeiro escritor
a atribuir a Valentim a autoria de algumas obras da referida
igreja, tais como seu altar-mor e a capela de N. Sra. das
Vitórias, também chamada do Noviciado.
No arquivo da ordem encontra-se lançamentos de contas
pagas a Valentim, durante um período de doze anos
de 1801 a 1813.
Mas não especificado quais as obras realizadas, pois
muitas vezes são feitas englobadamente.
Os lampadários de prata no Mosteiro de São
Bento, são atribuídos o risco ao mestre.
Obras comprovadas, segundo a autora.
(...) Na igreja da Cruz dos Militares: toda a primitiva
obra de talha, bem como as imagens dos Evangelistas São
Marcos e São João, esculpidas em madeira,
e que hoje se encontram no Museu Histórico Nacional.
Igreja
da Candelária: alguns arnatos do interior.
Igreja
de Santa Rita: lampadários
Igreja
da Conceição e Boa Morte: retábulo
do altar-mor.
Portão
- Antigo Passeio Público
Jacarés de Bronze - que foram muito louvados pelos
antigos críticos de arte.
Chafariz
- que apresenta um menino, tendo um emblema com a frase
sou útil ainda brincando.
Chafariz
- Praça 15 de Novembro - que é uma verdadeira
jóia da arquitetura colonial.
Em São
Paulo, o escritor Leonardo Arroyo juntamente com Diana Dorothea
fizeram um registro artístico sobre Memórias
e Tempo das igrejas de São Paulo. Nenhuma pesquisa
sistemática sobre o barroco propriamente dito.
Para afastar a estranheza de se escrever sobre o barroco
em São Paulo, tido como praticamente inexistente
se comparado com as igrejas barrocas de Minas Gerais e das
cidades da costa, nada melhor do que citar duas opiniões
de abalizados estudiosos de nossa arte colonial.
- Lúcio Costa diz São Paulo, Estado
que tem fama de ser pobre em arte colonial, ainda conserva
despreocupadamente - como jóias de família,
sem valor - os dois únicos exemplares do gênero,
(versões populares de retábulo) existentes
no país. São eles os dois retábulos
das capelas de Nossa Senhora da Conceição
de Voturuna e de Santo Antônio, esta no município
de São Roque.
Já Mário de Andrade nos afirma que São
Paulo não pode apresentar documentação
alguma que, com arte, se aproxime sequer da arquitetura
ou da estatuária mineira, da pintura dos entalhes
e dos interiores completos do Rio, de Pernambuco ou da Bahia.
Mas apesar da pobreza e a modéstia do barroco dos
séculos XVII e XVIII em São Paulo, encontramos
reações paulistas ao ciclo do ouro, que foi
desencadeado em todo Brasil pela energia e vigorosa insistência
dos rudes e audazes bandeirantes.
O barroco de São Paulo merece também um estudo
tanto quanto o de Minas Gerais, afinal os paulistas acumularam
ouro extraído das Minas Gerais.
Pode-se verificar nitidamente a beleza nos retábulos
jesuítas do Embu, de São Roque, de Voturuna
e do Colégio jesuíta de São Paulo.
O Convento da Ordem Terceira do Carmo e o Convento de Santo
Antônio, ambos em Santos, assim como sobre o Convento
de São Francisco, em São Paulo, como discorreu
Germain Bazin, que acrescentou no texto e na documentação
fotográfica de sua obra sobre a Arquitetura
Religiosa Barroca do Brasil.
O barroco feito em São Paulo, setecentista que, pelo
orgulho das descobertas pela pobreza de seu viver e pela
altivez de seu povo, constituiu desde o começo um
núcleo característico do Brasil-Colônia:
fechado, independente, agressivo e cioso de sua liberdade
total.
Cidade de Cunha
Igreja
Matriz de N. Sra. da Conceição - 1737 - o
que resta da antiga construção são
apenas as dimensões.
Seu interior é rico apresentando a capela-mor em
três janelas de cada lado ao longo da nave, 5 altares,
sendo 2 juntos ao arco do cruzeiro, 2 laterais à
direita de quem entra no templo.
O barroco está presente no altar-mor em 4 grossas
colunas salomônicas enfeitadas com talha fitomorfa
(com margaridas e folhas) e o terço inferior estriado.
No frontão, volutas encimadas por um resplendor que
tem, no centro, um triângulo. Nos altares do arco
do cruzeiro aparecem os quartelões internos com cabeças
de anjos, como os que se vêem na igreja de Santa Rita,
em Parati.
O gracioso e pequeno altar junto à entrada, quase
um nicho, é curioso: o artista revestiu suas 2 colunas
lisas com uma espiral, lembrando uma trepadeira que se enrosca
à sua volta. São todas enfeitada com volutas,
inclusive no frontão.
Não ostentam ouro. Estas foram recoberto pela tinta
a óleo e purpurina.
Igreja
de Nossa Senhora do Rosário - A Igreja nada apresenta
de particular, salvo sua fachada com duas torres.
O interior é, pobre, com altares de tábua
lisa, sem pintura ornamental.
Guaratinguetá
Esta
cidade no Vale do Paraíba foi, como Taubaté,
centro de grande importância na época do Ciclo
do Ouro. Desta região partiram os bandeirantes para
as descobertas de Cataguases, e lá fizeram concentração
as forças paulistas que pretendiam combater os reinóis,
na Guerra dos Emboabas.
Foi cidade rica, pela quantidade de ouro para lá
levada pelos bandeirantes que voltavam das Minas.
Igreja
Matriz de Santo Antônio - A Igreja foi reconstruída
devido reformas. Seu interior possui talhas ricamente trabalhadas,
embora sem o ouro devido a suas repinturas.
Tremembé
O Santuário
do Bom Jesus de Tremembé, próximo a Taubaté
é local de peregrinação e grande devoção,
pela fama de milagrosa que tem a imagem do Bom Jesus. Pouco
se conhece sobre as origens deste santuário que foi
reformado em 1915, e ficou com a fachada alterada.
Provavelmente o início da construção
se deu em 1672, por Manoel da Costa Cabral, fundador de
Tremembé. Mas a devoção ao Bom Jesus
vem do século XVIII.
Em seu altar-mor, notamos o frontão, as cornijas
e grossas colunas retas, lisas. No nicho encontra-se a imagem
do Bom Jesus, todo enfeitado de talha em estilo barroco-rococó.
O altar-mor teria sido, originalmente, dourado. O mesmo
se poderia dizer da talha da mesa do altar que ficou por
muito tempo num depósito, colocando-se em seu lugar
um conjunto de mármore de Carrara bem ao gosto do
fim do século XIX e início do século
XX.
Taubaté
Em 1717,
quando o Conde Assumar passou por Taubaté, dirigindo-se
para Minas Gerais, um omônimo escreveu:
(...) poderá ter esta Vila quinhentas para
seiscentas cazas bem plantada, e mais numerosas de gente
do que as outras. Referia-se à Vila de São
Paulo que poderá ser athe quatrocentas cazas
a mayor parte térrea, mas muy falta de gente.
Berço dos descobridores das Minas dos Cataguases,
Taubaté foi também um núcleo do barroco
em São Paulo.
A velha Matriz de São Francisco das Chagas foi reformada
e emparedaram-se com tijolos suas paredes de taipa de pilão,
guardou da sua condição colonial o altar-mor.
Sobraram, porém, algumas peças avulsas do
seu esplendor barroco.
Igreja
do Pilar - Possuía em seu depósito peças
dos antigos retábulos: colunas com segmento do fuste
em tortilhão e o restante reto com estrias, quartelões
trabalhados com anjos, estranhas figuras antropomorfas,
com sol, anjos e caras curiosas, além de peças
como palmas volutas, globos, que evidenciam o barroco de
que se compunham os velhos retábulos da Matriz de
Taubaté. Essa Igreja do Pilar, de 1747, possui capela
hexagonal e características coloniais, com altar-mor
e 2 pequenos altares laterais junto ao arco do cruzeiro
de tocante forma e delicada talha rococó. Destaca-se
a mesa de comunhão, com talha fora do comum nos seus
balaústres assimétricos.
Jacareí
O Arraial
de Nossa Senhora da Conceição do Paraíba,
hoje cidade de Jacareí, foi porto de rio no caminho
dos viajantes que nos séculos XVII e XVIII, se dirigiam
para o leste e para as Minas. Antigamente, quem ia de São
Paulo para Taubaté seguia por terra até a
freguesia da escada, junto ao Rio Paraíba, daí
descia até Jacareí onde, de novo, prosseguia
viagem em terra. Esse foi o trajeto feito, em 1717, pelo
Conde de Assumar, Dom Pedro de Almeida, governador
de São Paulo e Minas, centro do maior interesse da
Metrópole.
Igreja
do Avareí - Esta pequena igreja, hoje reconstruída
tem porta barroca e um retábulo simples nas linhas
que denunciam a arte setecentista.
O retrato tem 4 falsas colunas laterais (quartelões)
com alguns entalhes e molduras no alto com capitel, e na
altura da mesa do altar, são encimadas por volutas
com talha rebuscada. As duas colunas internas apresentam
maior trabalho de entalhe em toda a extensão da mesa
do altar até as cornijas, e suportam frontão
de talha barroca simplificada. O sacrário apresenta
composição com volutas e alguma talha, mesa
do altar de forma bojuda, sem enfeites.
Trata-se, com muita probabilidade, de um resíduo
do retábulo do século XVIII e, certamente,
da segunda metade do século.
Este altar foi desmontado para a reconstrução
da igreja, e sua pintura removida até a superfície
do velho cedro.
No Sacrário pode-se verificar a presença da
douração original apesar de camadas de repinturas.
Igreja
Matriz da Imaculada Conceição - Estilo Neoclássico,
é do período do Ciclo do Café, a primeira
metade do século XIX, mas existe citações
que a primitiva igreja seja de 1728. A atual igreja, não
se têm quaisquer documentos que provem sua época
ao certo.
Dos sete altares, somente dois parecem ser antigos, ostentam
talha rococó bem dourada, apesar de repinturas. O
altar-mor foi substituído por altar de mármore
que destoa.
A imagem de Nossa Senhora da Conceição é
do século XVIII e, neste templo, a única peça
realmente barroca.
Igreja
de Nossa Senhora do Rosário - Reconstruída
no século XX, tem 3 retábulos que são
da igreja antiga.
O altar-mor é de estilo neoclássico, com 6
anjos, colunas lisas e frontão triangular reto. Há
no altar alguma talha e ornamentos aplicados, com guirlandas;
é um neoclássico com remanescentes barrocos.
Os 2 anjos do frontão seguram no alto, em frente
ao nicho, a coroa de Nossa Senhora do Rosário. Há
ainda na capela-mor, sobre balaústre de alvenaria,
2 anjos, de aspecto barroco, segurando tochas. Os dois altares
laterais, junto ao arco do cruzeiro, são simples,
com frontão barroco e dois suportes em quartelão
que lembram, na sua razoável semelhança, os
do retábulo do Avareí. Há ainda um
púlpito no mesmo estilo.
O rococó é pobre, modesto. No século
XX, com sua reconstrução, soube-se preservar
os elementos de talha, seja por ciência, seja por
falta de meios para maiores obras.
Igreja
de Nossa Senhora do Bom Sucesso - Também reconstruída
e sem maiores vestígios de arte do período
de sua construção, e não se sabe a
data.
O altar-mor abriga partes do primitivo altar-mor da matriz.
São Paulo
Os remanescentes
barrocos da cidade de São Paulo ficaram nas igrejas
das ordens terceiras, de São Francisco e do Carmo.
Dos exteriores barrocos sobraram apenas a fachada da Igreja
de São Francisco e da ordem terceira. No Convento
da Luz, o exterior é de estilo colonial. O resto
foi modificado no decorrer do tempo.
Mas São Paulo, até o século XIX, tinha
igrejas barrocas cujo aspecto exterior lembrava as famosas
igrejas setecentistas do norte. Foram demolidas, inclusive,
até meados da década de 1970. Como por exemplo
a Sé.
Estas igrejas tiveram retábulos e ornamentos barrocos.
Ainda existem um retábulo da antiga Igreja do Coração
de Maria e um resto do altar da Igreja da Sé, na
Igreja da Boa Morte. A grande imagem de São Pedro
dos Cléricos, em madeira policromada e dourada, acha-se
no Museu de Arte Sacra onde também encontram-se
muitas alfaias das antigas igrejas de São Paulo.
Igreja
da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência
- Apresenta trabalho de Frei Adalberto Ortmann.
O altar-mor, os dois pequenos sob a cúpula e o do
consistório são do último quartel do
século XVIII. O altar de Nossa Senhora da Conceição
é de 1736, feito pelo entalhador Luiz Rodriques Lisboa.
E o mestre José Fernandes assentou o altar do
jazigo. Dois magníficos altares de talha semelhantes
e do mesmo estilo do altar de Nossa Senhora da Conceição.
Esta igreja possui transepto com uma grande cúpula
e seu zimbório. Há pinturas na cúpula
e no forro da capela-mor, onde o tema é ascensão
de São Francisco diante do espanto e terror dos religiosos.
Quadros alusivos nas paredes laterais da mesma capela, no
intervalo e abaixo das tribunas. Na sacristia arcaz com
oratório ladeado por pinturas. Ao lado, um lavabo
de pedra de Lioz. O altar-mor é de estilo barroco-rococó
com 4 colunas estriadas que se apóiam em grandes
mênsulas também estriadas. Frontão com
várias arquivoltas. Em todas as superfícies
lisas, ornamentos de talha de feição rococó.
O trono de 5 andares, entalhado, é encimado pela
composição de um São Francisco
de joelhos recebendo as chagas do Santo crucificado
(peça de 1740). O crucifixo tem 3 pares de asas,
uma rara disposição. Os 6 altares laterais,
todos iguais, lembram, no seu estilo simples, o altar-mor,
são de um barroco-rococó tardio.
Arco do cruzeiro, com graciosa talha, conjunto de volutas
emoldurando um escudo.
O altar de Nossa Senhora da Conceição é
uma peça barroca de grande beleza. Tem 4 colunas
salomônicas apoiadas em cariátides. A parte
inferior do fuste é raiada e a parte superior enriquecida
com talha fitomorfa. O nicho central em baldaquim é
emoldurado de talha, e seu trono, de 4 escalões,
suporta uma imagem de Nossa Senhora da Conceição,
em cuja peanha há 12 cabeças de anjos. Sobre
cornijas trabalhadas, o frontão com 4 anjos de corpo
inteiro e um grande escudo central entalhado. O Sacrário,
pequeno baldaquino com 2 anjos sem asas bastante desproporcionados,
afastando as cortinas para deixar aparente a porta. Mesa
de altar, simples, mas com talha de bom gosto.
O altar de São Miguel, é uma renda de talha
dourada, com 4 colunas salomônicas, sem nichos laterais,
que se prolonga para o alto, terminando por uma grande antena.
Esses entalhes não têm qualidades artísticas
dos retábulos de Minas Gerais e das cidades da costa
brasileira, mas são dos melhores que existem em São
Paulo.
Nos documentos da irmandade encontra-se registros de pagamento
ao pintor Ventura da fatura do andor e da imagem da Divina
Justiça, 3 imagens, globo e Serafim, à importância
de 40$000.
Em 1789, pagou-se Ao pintor Boaventura de ir batumar
o zimbório, #640 réis e ao dito mais
dinheiro que pediu para as tintas, #700 réis.
Ainda em 1789 houve mais dois pagamentos. Por que
se deu ao mestre Boaventura de encarnar a imagem do Senhor
(do andor das chagas).
Em notas e documentos diz o Frei Ortmann Parece
que as imagens são obra do pintor Ventura ou Boaventura.
Igreja
do Convento de São Francisco - 1787 - Capela-mor
reconstruída em 1880.
Possui 3 altares, o altar-mor, do século XIX, segundo
informações, veio da Alemanha, e os dois altares
laterais do cruzeiro. O 1º é de estilo neoclássico
e os dois laterais são do fim do século XVIII
de talha simples, com 2 colunas externas lisa e as 2 internas
com quartelões. Acima das cornijas, sem enfeites
de talha, o frontão, com várias arquivoltas
lisas, tendo no centro um escudo de talha e, sobre bases
que prolongam as colunas, 4 acróteras.
Acima, vê-se mais um friso com entalhes que simulam
um dossel.
Presume-se que os trabalhos sejam do fim do século
XVIII. A igreja completa, tem arco do cruzeiro simples,
encimado por um escudo com as ensígnias Franciscanas,
tribunas e painéis de azulejo na capela-mor.
Na nave, outras tribunas, um púlpito e no teto, notável
pintura que é a parte mais antiga da igreja
segundo os frades do convento.
Igreja
de Santo Antônio - 1717 - Frontispício refeito
em 1899.
Tem 3 retábulos, o da capela-mor e os dois do arco
do cruzeiro. Germain Bazin, referiu-se ao altar-mor como
a mais bela porção de talha rococó
de São Paulo. Os dois altares laterais são
mais antigos, meados do século XVIII e sua estrutura
barroca é evidente. Ambos apresentam colunas salomônicas
e, junto ao nicho central, na parte interna, quartelões
que têm, no terço superior, um console.
Já as colunas salomônicas têm seu terço
inferior estriado, ao passo que a parte restante é
toda enfeitada de talha fitoforma. Entre os dois apoios
amplos ornatos de talha. Ao lado das colunas externas, outro
ornamento que representa, estilizado, um vaso com palma.
O frontão, prolonga-se acima das cornijas numa altura
correspondente à das colunas abaixo. Tem arquivolta
dando acabamento ao nicho e, mais para cima, outra, com
cornija.
Talha vasada encimando o acabamento de desenho barroco.
Nesse frontão, enfeite de talha em toda sua superfície,
destacando-se um escudo central, com cestas de flores, três
no altar da esquerda e duas no da direita, no centro representação
do Divino.
Igreja
do Convento do Carmo - 1594 - Primeira reforma 1766. Demolido
em 1928. Foram construídos novo convento e igreja
na Rua Martiano de Carvalho, onde abriga o conjunto dos
altares, retábulos, etc, do século XVIII.
Igreja
de Nossa Senhora da Luz - Fim do século XVIII. Tem
duas fases na sua existência desde o século
XVII.
Em 1774 foi inaugurado o Convento da Luz.
Possui na capela-mor e altar-mor, tribunas e quadros a óleo
e na nave, os 2 altares do cruzeiro e púlpito. Germain
Bazin, referindo-se à igreja, diz que o conjunto
de talha de Nossa Senhora da Luz mostra a significação
e a simplificação (desséchement) da
escultura decorativa do século XIX, sob influência
neolcássica. Esta definição de
Bazin é perfeita. É o estilo neoclássico,
onde há resíduos do barroco retardatário
que ocorreu no primeiro quartel do século XIX.
MINAS DO OURO
Com
as descobertas espanholas na América, em meados do
século XVI, a Coroa Portuguesa, no afã de
localizar em seu lado a prata e pedrarias, seduz
os caçadores de índios a promover as bandeiras,
à procura de riquezas do solo. O pronto atendimento
dos paulistas (da região de Taubaté e Piratininga),
acaba por promover a interiorização do Brasil,
quando descobrem o ouro, em fins do século XVII.
A corrida
do ouro, que então se tornou uma febre tanto na colônia,
quanto na metrópole, vai fazer chegar ao interior
do país, gente de todas as raças, opiniões,
credos e tradições. Uma série de medidas
é tomada pela Coroa para coibir abusos e contrabando,
dentre elas a proibição de instalação
de seminários e noviciatos (ordens 1a. e 2a.), na
região das minas. Só foi permitida a associação
de leigos, ou as ordens 3as.
Como
havia então a prática do absolutismo, a religião
entra com destaque, como herança do europeu na cultura
que se instalava na região. Porém, não
foi somente o fator religioso que irrompeu o nascimento
de uma variada gama de irmandades, também o status,
o caráter estratificado da sociedade que ora se formava,
a necessidade de relacionamento social com pessoas do mesmo
nível e a função previdenciária,
foram marcantes para esse desenvolvimento.
Com
o aumento do número de irmãos, foi sendo necessário
aumentar o tamanho das igrejas matrizes ou da ordem, das
toscas ermidas vão surgindo as primitivas capelas
de taipa, adobe e pilão socado. As irmandades que
ainda não possuíam igrejas sentiam a necessidade
de instalar na igreja matriz o altar em devoção
ao seu santo, as que conseguiam erigir suas igrejas desejavam
torná-las sublimes, e as famílias mais abastadas
contribuíam para a construção dos altares
laterais destas igrejas, cada um querendo suplantar o outro,
e isso vai fazer com que aflore na região um gosto
pelas artes que trará artistas e artífices
de Portugal e balizar a formação de artistas
nativos e mais, fazer nascer nas minas, uma arte barroca
legitimamente brasileira.
Existiam
naquela época as corporações de ofício,
e nesse ínterim, qualquer artesão, artífice
ou artista, precisava de licença para exercer sua
atividade, do carpinteiro ao pintor, do mestre canteiro
ao arquiteto, todos prestavam prova junto ao juiz de ofício,
normalmente eleito pela câmara. A formação
dos novos artífices se dava no canteiro de obras.
Junto ao mestre do ofício, deixavam os pais seus
filhos, garantindo fornecer-lhes roupa e calçados,
e o mestre se responsabilizava pela moradia e comida e o
aprendizado se dava através da prática.
Dentre
os inúmeros artistas portugueses que acorreram às
minas, destacamos:
Antônio Francisco Pombal (carpinteiro - tio de Antônio
Francisco Lisboa) Campanário e sino da cadeia - 1721/23
- Câmara e cadeia; forro, cimalha e pés direito
e consertos na Matriz de Nossa Senhora do Pilar - Ouro Preto.
Manuel Francisco Lisboa (Carpinteiro e mestre das obras
reais - pai de Antônio Francisco Lisboa) Igreja de
Nossa Senhora da Conceição de Antônio
Dias - Traço arquitetônico, cômoda da
sacristia, coro, forro da sacristia, e cantaria,
Talha e retábulo da capela mor por se encontrar doente
Xavier de Brito, da Matriz do Pilar.
Casa dos Governadores - construção, acréscimos
e consertos diversos.
Obras na Igreja de Santa Efigênia; Passos; Chafariz
ponte de Antônio Dias, outro no Pissarão; Ponte
do Caquende, de Itaubira, etc.
Francisco Xavier de Brito (entalhador) Talha e zimbório
da capela mor da Matriz do Pilar, obras na Sta. Efigênia,
planta da talha da matriz de Antônio Dias. Talha da
Igreja de São Francisco da Penitência (Rio),
etc.
José Soares de Araújo (pintor) pintura e douramento
nas igrejas do Carmo, São Francisco e Rosário
em Diamantina.
José Pereira Arouca (pedreiro e carpinteiro) Trabalhou
em Mariana: Igreja São Pedro dos Clérigos,
S. Francisco de Assis, em Pontes, na casa Capitular, Sepultura
do D. Frei M. Cruz, aquedutos, chafarizes, Catedral, Palácio,
etc. Em Ouro Preto: Nossa Senhora do Carmo, São Francisco
de Assis, etc., dentre outros artistas e artífices.
No
século XVIII, no auge do trabalho destes e outros
artistas portugueses, o barroco embora com sua chegada tardia
no Brasil, representava muito bem o papel de arte da contra
reforma. As igrejas com seu exterior simples, e o interior
imponente; profusão de ornatos, anjos, aves, flores,
volutas, dosséis e outros, exigiam um exímio
trabalho de talha da madeira, antes de receber pintura e
douramento. Havia, parece, um certo horror ao espaço
vazio, e o rebuscado ganhava forma e ouro, muito ouro. Indiferente
à miséria que assolava a região das
minas, ao excesso de impostos (e também às
variações compulsórias destes), à
dificuldade de se conseguir os materiais que eram constantemente
trazidos da Europa e inundavam o litoral, a necessidade
de adaptar o aprendido, assimilando técnicas e materiais
da região, as igrejas ostentavam riqueza, opulência.
Era na realidade o grande teatro da Igreja, na ânsia
de não perder fiéis, e também manter
sobre eles um certo controle.
Os
festejos, no qual concorriam em grandeza as várias
irmandades, passavam do religioso ao profano durante o período
da festa (dias). E vai ser neste clima, onde os padres não
eram celibatos, possuíam prostíbulos e contrabando;
onde até o dia em que foi proibido pelo rei, escravo
comprava sua liberdade com trabalho extra; aonde brancos,
negros e índios iam misturando num caldeirão
o cerne do que viria a ser o nosso povo, que vão
nascer, crescer e aprender as primeiras levas de brasileiros
do interior. É nesse clima que vai florescer a arte
de Antônio Francisco Lisboa (arquiteto, escultor e
entalhador), Manuel da Costa Athayde (pintor e arquiteto),
Francisco de Lima Cerqueira (pedreiro e canteiro), João
Nepomuceno Correa e Castro (pintor) e Bernardo Pires (pintor),
dentre outros.
A segunda
metade do século XVIII vai trazer ao Brasil o Rococó,
novo estilo na arte barroca e que, nas Minas Gerais, vai
ganhar uma forma inteiramente nova. Com o advento da cantaria,
e o uso das pedras encontradas no local para confecção
de alicerce, degraus, etc., vai permitir o aparecimento
de uma arquitetura com movimento. Exemplos claros encontramos
nas igrejas de São Francisco de Assis e Carmo (Ouro
Preto, Mariana, São João Del Rey), São
Pedro dos Clérigos em Mariana e Nossa Senhora do
Rosário em Ouro Preto. O interior das igrejas vai
perdendo a profusão de ornatos. O altar-mor se torna
simples e harmonioso, sem excesso de ornatos. Já
não possui dossel, característico das primeiras
fases, substituído aqui por excelentes esculturas.
No alto fica o magnífico alto-relevo representando
a santíssima trindade, (...) onde figura também
a Virgem da Conceição. As colunas têm
o terço inferior torso, como se vê em altares
da mesma fase. Entre as colunas e os consolos que limitam
a abertura do trono, ficam os nichos constituídos,
na parte inferior, por em embasamento saliente e ornamentado,
e na superior por arco arrematado em ornatos conchóides.
(São Francisco de Assis de Ouro Preto - MOURÃO,
Paulo Kruger Correa - As igrejas setecentistas de Minas).
A pedra
vai realizar maravilhas no barroco mineiro. Nas mãos
hábeis de um escultor mulato, a esteatita toma a
forma de púlpitos ornados de cenas bíblicas,
de frontispícios harmoniosos com figuras que nos
transmitem movimento e emoção. Na cabeça
grisalha de um santo em corpo de madeira. Com seus traços
marcantes - nariz aquilino, maçãs salientes,
bigodes saindo nas narinas, sobrancelhas iniciando na base
do nariz, olhos amendoados, Aleijadinho faz com que a pedra
sorria, entre em êxtase, sofra, agonize, reflita.
O que nos dirá então seu trabalho na nobre
madeira. Basta uma visita ao Santuário do Bom Jesus
do Matosinho em Congonhas, para ver o que este artista fazia
com um centenário pedaço de cedro. As figuras
das duas primeiras capelas (ceia e jardim das oliveiras),
o Cristo das outras capelas e o mau ladrão na crucificação
são exemplos gritantes. Em pedra ainda os Profetas,
que com a ajuda de seu atelier encarnam o seu magnífico
balé. Este artífice, filho de pai português
com uma escrava angolana, nasceu mulato, de corpo atarracado,
e meio disforme. Aos 47 anos, foi acometido de seqüelas
de várias doenças (sífilis e provavelmente
artrite deformante, entre outras) mas trabalha por mais
quase trinta anos entalhando obras de rara beleza. O ofício
provavelmente aprendeu com o pai e o tio, grandes mestres
e ainda deve ter tido acesso a missais e outras fontes de
gravuras vindas de outras partes do mundo, haja visto o
traço de suas figuras e as roupas bizantina do apóstolos
de Congonhas.
Não podemos ainda esquecer de outros grandes artistas
como é o caso de Francisco de Lima Cerqueira (São
Francisco de São João Del Rey) e Vieira Servas
(mestre dos anjos tocheiros).
Na
arte da pintura, embora vários artistas (principalmente
os responsáveis pelas chinesices) tenham permanecido
anônimos, não podemos olvidar João Nepomuceno
Correa e Castro, com suas linhas e tons que embelezam a
nave da Basílica de Bom Jesus, mas vamos nos ater
ao exemplo de Manoel da Costa Athayde, que junto a Aleijadinho
vai registrar fenômeno em nosso barroco. Apenas para
situá-lo na carnação, não podemos
deixar de registrar o artifício utilizado no passo
do monte das oliveiras, acima citado, quando, em recurso
de pintura, faz com que o Cristo transpire sangue.
Porém vamos tentar enxergar, com outros olhos, sua
passagem pela Igreja de São Francisco de Assis em
Ouro Preto.
Athayde, apesar de branco (filho de portugueses), eleva
a etnia brasileira ao cabedal dos anjos e santos, quando
lhes dá traços mulatos - beiço volumoso,
cor morena, nariz largo... Este exemplo é focalizado
na pintura do teto da nave (Nossa Senhora subindo aos céus
ladeada de anjos) e nos painéis da vida de são
Francisco, nos quatro cantos da mesma nave. Porém
algo de muito interessante vai aparecer na capela mor.
Como o azulejo, muito utilizado no barrete dos altares mores
como podemos verificar nas igrejas do litoral, era de difícil
transporte para o interior (pensar no tempo de viagem e
penoso percurso), em Minas era utilizada a madeira imitando
o azulejo, assim os pintores eram contratados para fazer
o azulejamento ou zulejamento do altar-mor.
Pois bem, nessa igreja em particular, Athayde encima o azulejamento
com vários anjinhos, segurando os instrumentos de
martírio e penitência (ao gosto ou tradição
das igrejas franciscanas da época). Porém
todos os anjinhos, sem exceção têm feições
mordazes, têm cara de safados. Ora, não podemos
deixar de fazer uma alusão ao que servia a arte barroca,
a vida do povo nas minas e a brincadeira do artista numa
das mais poderosas irmandades da época.
Todos
os artistas e artífices, forasteiros ou nativos,
mesclaram e legaram conhecimento às gerações
futuras. No século XVIII, as artes serviam à
comunidade na feitura de chafarizes, pontes, imponentes
prédios da administração e na satisfação
de desejos de religiosidade, penitência, sociabilidade,
e educação. Ainda hoje, encontramos nestas
regiões, artistas e artífices imbuídos
de sentimentos parecidos. Porém, estes assinam suas
obras, coisa que os anteriores, por se tratar de contrato,
só assinavam recibos. Muito nos foi e ainda é
deixado de legado, o sofrimento da madeira nos instrumentos
do entalhador, a beleza da cor provinda da água,
clara de ovo e pigmento, na formação da têmpera,
as novas facilidades decorrentes da dificuldade que apresentam
hoje os materiais utilizados outrora, nos trazem ainda beleza,
harmonia, sentimento, prazer.
A função
social da arte é primordial para qualquer civilização,
seja na pintura rupestre, seja contando uma história,
seja erigindo templos com bela talha e magnífica
pintura, seja construindo chafarizes ou pontes, seja mostrando
a história que permeia nossa vida através
das artes plásticas, fotos, filmes etc. O artista
age onde somos impotentes, é esse poder de subverter
a realidade que faz com que a beleza da arte seja de valia
a qualquer povo, se esse povo puder mesclá-la com
sua realidade.
A verdade é que não somos nem completamente
sem poder, nem completamente capazes de criar nossa própria
realidade(...) o que sentimos não depende apenas
de nós, mas também o resultado da realidade
que nos rodeia (...) o poder que possuímos , em qualquer
momento, depende do que podemos arregimentar numa dada situação
e quanta aceitação o mundo nos oferece em
troca de nossos esforços. É , de fato, uma
proposta meio a meio. Nosso poder depende em parte do que
fazemos, e, em parte, do que outros fazem em resposta a
isso. Nem o mito da falta de poder, nem o mito do poder
absoluto fazem sentido num mundo real. (STEINER, Claude
M. - O outro lado do poder).
Bibliografia:
JARDIM, Márcio. Aleijadinho: uma síntese histórica.
Belo Horizonte: Stellarum, 1995. 225p.
MARTINS,
Judith. Dicionário de artistas e artífices
dos séculos XVIII e XIX em Minas Gerais. Salvador:
UFBA, 1976. 210p.
MOURÃO,
Paulo Kruger Correa. As igrejas setecentistas de Minas.
Belo Horizonte: Itatiaia, 1986. 180p.
STEINER,
Claude M. O outro lado do poder. 2ª ed. São
Paulo: Nobel, 1986. 197p.
TERMO
de Mariana: história e documentação.
Ouro Preto: Editora da UFOP, 1998. 220p.
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