Há
quarenta mil anos.
Datam
dessa época, os primeiros vestígios do homem
na terra. Os nossos antepassados, os famosos homens das
cavernas, já produziam arte? Já refletiam
sobre o fazer artístico? Até que ponto tinham
consciência do poder das suas imagens? Qual era
o lugar da arte na vida do homem pré-histórico?
É
muito comum encontrarmos como registros desses homens,
as imagens que eles deixaram no interior das cavernas
que lhes serviam de abrigo. Eles eram nômades, portanto,
dependiam do fluxo da natureza para sobreviverem.
Durante
as quatro eras glaciais que marcaram o período
paleolítico, o homem era forçado a buscar
na caça, o seu alimento, já que não
haviam plantas. As diferentes flutuações
climáticas que ocorreram durante esse período,
levaram o homem a caçar diferentes animais
No
período inicial da sociedade humana, o homem competia
com animais ferozes como o urso e o leão, pelas
cavernas. Deduz-se isso a partir da informação
documentada nas cavernas dos Alpes. Ursos representados
através de pinturas no teto que sugerem rituais
de culto ao urso. Nessas cavernas dos Alpes, também
foram encontrados ossos de ursos ritualmente dispostos.
Formas em círculos e uma simetria que sugere algum
processo ritualístico. Também era freqüente
a caça e o culto da rena nesse período.
O arouche foi outro animal pintado com muita freqüência.
Ele era parecido com o búfalo selvagem e ao que
tudo indica, muito feroz e violento. Segundo as pinturas
encontradas dessas feras, sua caça era um evento
sangrento. A importância dos arouches nas comunidades
primitivas foi tão forte, que ele chegou a ser
posto como divindade, já nas comunas neolíticas
por uma área que vinha da Europa ocidental até
a Índia oriental. Nas primitivas clãs do
Egito e no Mediterrâneo ocidental. Esses povos acreditaram
por milênios, que o touro era o Deus da Fertilidade
e do poder dos reis. Os primeiros Deuses totêmicos
da "proto-história" do ocidente eram originados
no culto do touro e do javali nas tribos Neolíticas.
No
chamado período Monsteriano, a caça mais
freqüente eram os mamutes. Nas regiões árticas
da Ásia, foram encontrados ossos de mamutes com
relevos esculpidos. No período Solutreano, a caça
do cavalo era predominante, e está registrada em
várias cavernas da França. No último
período, a rena novamente voltou a ser uma caça
muito comum.
Embora
existam registros de plantas e outros objetos da arte
paleolítica, as figuras predominantes são
os animais selvagens. Eles representavam um perigo constante,
e o homem paleolítico não tinha condições
tecnológicas de produzir outro alimento, senão
a caça. Isso gerava uma ansiedade que o levava
a buscar tecnologias que o ajudassem a obter sucesso na
caça. Essa busca pode ter tido um papel muito importante
no surgimento dos rituais e crenças em deuses animais.
O
caráter místico da arte primitiva reside
na forma como os animais eram representados, além
dos locais onde são encontradas as pinturas e dos
vestígios de atividades humanas nesses locais.
O caráter utilitário da arte das cavernas
consistia na crença de que através dos rituais,
era possível um "encantamento" das feras que as
tornassem mais passíveis de serem caçadas.
A
reprodução humana e animal também
era um tema muito frequênte na arte primitiva. Existem
historiadores que acreditam que a Magia da fertilidade
predominou sobre a Magia da caça.
A
magia da fertilidade é representada nas paredes
das cavernas por formas exageradas de mulheres, os seios
nus, sem pernas, braços e rostos. O homem era representado
por um boneco simplificado, e o único detalhe era
o pênis, muito grande e ereto. A reprodução
animal era mais representada que a humana.
É
espantosa a qualidade técnica de algumas pinturas
encontradas nos fundos das cavernas. A originalidade é
característica muito comum nas grutas Francesas.
O artista que executou grandes animais nas grutas de Lascoux,
se apropriou de relevos existentes na superfície
usada como suporte, para criar ilusões de músculos
em um touro. Existem detalhes nessas imagens que o homem
do paleolítico representava com um exímio
conhecimento, comparável a grandes desenhistas.
A superposição de imagens é muito
comum. Acredita-se que certos lugares eram considerados
especiais e por isso, por várias vezes, eram usados
como cenário para magias de caça e fertilidade,
além de suportes para a arte, seja ela produto
ou parte desse rito. Não há outra explicação
para essa superposição, já que o
interesse estético não fazia o menor sentido
e não havia nenhuma ordem lógica para a
colocação dessas figuras. Quanto mais difícil
o acesso a uma determinada caverna e quanto mais acidentada
ela era, mais carregada de imagens eram suas paredes.
Essa é outra característica que nos leva
a acreditar na existência de lugares sagrados para
os homens primitivos e também descarta a possibilidade
dessas imagens serem simplesmente decorativas.
Outras
evidências de rituais são encontradas nas
cavernas africanas, crânios trabalhados com certas
aberturas freqüentemente repetidas são considerados
vestígios de canibalismo ou de uma crença
no espírito individual. O homem do período
paleolítico já possuía ritos funerários
ligados à crença de uma vida futura. Pois
eles sepultavam seus mortos sem a preocupação
de protegerem o seu corpo. Eram usados também,
vários pigmentos nos ossos do homens.
Devido
a esse caráter ritualístico da arte rupestre,
ela deve ser analisada juntamente com as características
sociais que a envolvem. O artista, as crenças,
os hábitos e as necessidades suas e de seus contemporâneos.
Os
ritos, acontecimentos sociais onde grupos de homens formalizam
relações entre si e com outros grupos e
forças superiores, têm, nas diferentes culturas
em que ele se manifesta, um papel socializador muito importante.
Especificamente na pré-história, ele foi
responsável pelo desenvolvimento da cultura. As
primeiras noções de hierarquia derivam dessas
cerimônias - Quando um homem executava melhor determinada
tarefa, ele se tornava responsável por ela num
grupo, favorecendo o intercâmbio complementar à
integração da vida social. A proibição
do incesto, para alguns arqueólogos, é um
dos fundamentos da sociedade humana - Um homem não
se casa com uma moça de sua família porque
pretende que ela se case com um homem de outra família.
Assim aumenta as possibilidades de sobrevivência
dos seus.
O
pragmatismo da arte pré histórica é
sua primeira característica. A relação
existente entre a técnica mágica e o objetivo
prático é muito forte. As pinturas representavam
a coisa representada e eram simultâneamente, o desejo
e a sua realização. O artista, embora muito
interessado na eficácia de sua magia, deve ter
considerado a importância estética das imagens
produzidas, mesmo como um simples meio a serviço
de um fim prático. Essa situação
é muito claramente retratada nas relações
existentes entre o gesto e a magia dos povos primitivos.
A
relação da pintura Paleolítica com
a magia ajuda a explicar o naturalismo dessa arte. Se
a pintura não fosse de caráter genuíno,
fiel, a eficácia da magia podia estar comprometida.
A
magia faz parte do conjunto total de crenças, podendo
vir a representar, portanto, uma fase ou segmento da religião,
religião não como crítica ou crença
particular, mas como fenômeno universal da espécie
humana. A magia implica ação direta e pode
assumir uma grande variedade de formas. Seus elementos
essenciais podem ser um conjunto de crenças que
a faz válida através da arte. No caso da
magia rupestre, pinturas ou desenhos simbólicos,
ritos, objetos mágicos, palavras e homens considerados
especiais, os feiticeiros, chamãs, pajés
e bruchos.
No
período Neolítico, ou período da
pedra polida, o naturalismo cedeu espaço a uma
estilização geométrica que traz o
artista à margem da realidade empírica.
Em lugar da representação fiel, aparecem
sinais esquemáticos e simplificados que sugerem
mais do que produzem, a idéia em bloco, o conceito
e a essência íntima das coisas. Ela pretende
criar símbolos em lugar de representações
fiéis dos objetos. Um passo dado para o surgimento
dos hieróglifos e da escrita. A partir daí
o homem começa a domesticar animais e adquirir
conhecimentos sobre a agricultura e a pecuária.
O início do movimento organizado de fornecimento
de matérias primas necessários nos afazeres
do dia-a-dia, que estavam começando a ser definidos
também data dessa fase. A transição
da caça e a coleta para o cultivo e a criação,
modificou o ritmo da vida do homem da pré-história.
Quando ele começou a tomar conhecimento das dificuldades
existentes no princípio das organizações
sociais, ou seja, as chuvas, as pragas, a fome e as catástrofes
naturais de forma geral, começou a dar espaço
para o surgimento das concepções de todas
as espécies de demônios e bons espíritos.
Acredita-se que isso originou o que hoje chamamos de religião.
O
animismo, característica da arte neolítica,
divide-se em realidade e supra- realidade, em mundo visível
do fenômenos e o mundo invisível dos espíritos,
em corpo mortal e alma imortal. Os ritos fúnebres
do homem neolítico revelam a concepção
da idéia de alma separada do corpo. O Ânima
e o Mâna. Uma concepção da vida que
antes era Monista, considerava a realidade como coerente
e contínua, ligada ao presente, passa a ser Animista,
dualista e tende a abstração por tratar
de questões como a morte. Surge aí o processo
inicial de intectualização e racionalização
da arte.