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Grupo:
Aline
Midori
Melissa Bizarro
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O
artista e o artesão
Detendo-se
nas questões arte e artesanato, começamos a
identificar o fazer que destingue cada uma delas... Que arte
na realidade não se aprende. Existe, é certo,
dentro da arte, um elemento, o material, que é necessário
por em ação, mover, para que a obra de arte
se faça. O som em suas múltiplas maneiras de
se manifestar, a cor, a pedra, o lápis, o papel, a
tela, a espátula, são o material de arte que
o ensinamento facilita muito a por em ação.
Mas nos processos de movimentar o material, a arte se confunde
quase inteiramente com o artesanato. Pelo menos naquilo que
se aprende. Afirmemos, sem discutir por enquanto que todo
o artista tem de ser ao mesmo tempo artesão. Isso parece
incontestável e, na realidade, perscrutamos a existência
de qualquer grande pintor, escultor, desenhista ou músico,
encontramos sempre por detrás do artista, o artesão.
O artesanato, os segredos, os caprichos, as exigências
do material, isso é assunto ensinável, e de
ensinamento por muitas partes dogmático, a que fugir
será sempre prejudicial para a obra de arte. E se um
artista é verdadeiramente artista, ou seja, está
consciente do seu destino e da missão que se deu para
cumprir no mundo, ele chegará fatalmente àquela
verdade de que, em arte, o que existe de principal é
a obra de arte.
Foram
os próprios filósofos escolásticos,
que espantosamente foram os que mais claro afirmaram isso
quando, ao porem a arte no domínio do Fazer,
dela disseram ter uma finalidade, regras e valores,
que não são os do homem propriamente, mas
da obra de arte a ser feita. Está claro que
o ser a obra de arte a finalidade mesma da arte, não
exclui os caracteres e exigências humanos, individuais
e sociais, do artefazer. Pois a arte continua essencialmente
humana, se não pela sua finalidade, pelo menos pela
sua maneira de operar.
O artesanato é uma parte da técnica da arte,
a mais desprezada infelizmente, mas a técnica da
arte não se resume no artesanato. O artesanato é
a parte da técnica que se pode ensinar mas há
uma parte da técnica de arte que é por assim
dizer, a objetivação, a concretização
de uma verdade interior do artista. Esta parte da técnica
obedece segredos, caprichos imperativos do ser subjetivo,
em tudo o que ele é, como indivíduo e como
ser social. Isto não se ensina e reproduzir é
imitação. Isto é o que chamamos a técnica
de Rembrant, e Fra Angelico ou de Renoir, que divergem os
três profundamente não apenas na concepção
do quadro, mas consequentemente na técnica do fazer.
Outra manifestação da técnica é
a virtuosidade, que seria do artista criador o conhecimento
e prática de diversas técnicas históricas
da arte, enfim, o conhecimento da técnica tradicional.
Este aspecto da técnica que é, por exemplo,
conhecer como os Assírios, os Gregos, Miguel Angelo
ou Rodin resolveram a reprodução do cabelo
na pedra ou no mármore, que é conhecer a distribuição
das luzes e das sombras, dos tons frios e quentes, ou a
maneira diversa de pincelar de Rafael, de um Duerer, de
um El Greco ou de um Cèzanne; que é ainda
conhecer a evolução histórica da cadência
de dominância desde os primeiros tonalistas até
os nossos dias: este aspecto da técnica a que chamamos
de virtuosidade é também ensinável
e muito útil. Não me parece imprescindível,
porém como toda virtuosidade apresenta grandes perigos.
Não só porque pode levar o artista a um tradicionalismo
técnico, meramente imitativo, em que o tradicionalismo
perde suas virtudes sociais para se tornar simplesmente
academismo porque pode tornar um artista uma
vítima de suas próprias habilidades, isto
é , um indivíduo que nem sequer chega ao princípio
estético, sempre respeitável da arte pela
arte, mas que se atem em meros malabarismos de habilidades
pessoais, entregue a sensualidade do aplauso ignaro.
Numa
anedota espanhola, do moço poeta que, desejoso de
fazer poemas sublimes, se dirigiu ao maior poeta do tempo
e lhe perguntou como é que este fazia versos. E o
grande poeta respondeu: No princípio do verso, põe-se
a maiúscula e no fim a pontuação. E
no meio? indagou o moço. E o grande poeta:
hay que poner talento...
Quando
falamos de pessoas, falamos de identidade, quando falamos
de grupos sociais, região, comunidade, nação,
temos uma cultura. A imagem inicial e básica que
orienta o que é artesanal nasce no plano do fazer,
dominar conhecimentos e tecnologia tendo na ação
de executar com as mãos o que é mais representativo
do protótipo do ser artesão, do fazer artesanato
, do caracterizar o objeto artesanal.
O que
importa é que o apoio das ferramentas assuma a condição
de prolongamento e projeção do corpo do homem,
multiplicando possibilidades nos atos de transformar e revelar
nas intervenções que ele, homem, faz da natureza
como indivíduo e tradutor da sua cultura. Assim,
o objeto torna-se um testemunho não apenas do conhecimento
técnico, mas, principalmente, da visão do
mundo, de sua revelação, homem e sociedade,
dialogando na tentativa de dizer quem ele é pelo
que faz, significando para si e para seu grupo valores simbólicos
de quem vivencia o seu modelo cultural.
Se consideramos
essas questões como verdadeiras, vemos aí
a total impossibilidade de estabelecer parâmetros
ou comparações, nas rotuladas e chamadas qualidade
do artesanato, autenticidade, rusticidade, como componentes
necessários ao estabelecimento de um conceito ou
conceitos que objetivem em visões externas de produções
complexas que se expressam independente de teorias e críticas.
Existe
ainda outra questão angustiante que diz respeito
à repetição de formas ou criação,
vista como novidade ou revelação. Os compromissos
com a manutenção de modelos, ou com a incorporação
de novos temas para construir objetos, estão além
do domínio das técnicas ou das descobertas
individuais. Modelo existe como marca da identidade desse
momento, que o grupo realizador pode querer dar continuidade,
tendo, porém, autonomia de transformar parcialmente
o modelo ou até substitui-lo por outro. Observa-se
ainda uma fantasia do que serve de tipo quando a cultura
é vista pelo outro perpetuando aspectos formais que
se enquadre no desejado conteúdo característico
ou típico e é preciso ainda alertar para as
implicações do comércio, do turismo
, do estado, da moda, da intervenção de intelectuais,
nos descobridores de típicos, ora como artesãos
ora como objetos. O repetir o modelo está na utilização
de uma técnica para um produto aceito e a criação,
o que há dela, desponta na rebeldia desse modelo
como forma transgressora da repetição. O artesanato,
antes de tudo é o testemunho insofismável
do complexo homem/natureza. E é por meio da cultura
material que o domínio da técnica e do tipo
de objeto estarão dizendo sobre o espaço de
sua feitura, ora pelos aspectos físicos, ora pela
própria ideologia da cultura.
Bibliografia:
ANDRADE,
Mário de. O artista e o artesão. Aula inaugural
dos cursos de Filosofia e História da Arte, do Instituto
de Artes, da Universidade do Distrito Federal em 1938. 16p.
(Mimeogr.).
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