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Arte
e artesanato em termos sociológicos: alguns conceitos
Dentro de um estudo que se propõe na compreensão
dos fenômenos da arte e do artesanato na época
atual, a procura de um embasamento, através da exposição
de conceitos do universo das Ciências Sociais, pode
fornecer elementos que melhor direcionem - como suporte
- a realização deste trabalho.
Não
se pretende aqui esgotar-se todo um embasamento teórico
do campo sociológico - que também estuda o
mesmo assunto - mas, antes disto, fornecer - através
da exposição de alguns conceitos - algumas
diretrizes na condução da empreitada aqui
proposta.
Por
razões metodológicas, se no presente trabalho
- que se propôs na exposição de conceitos
diversos - houve um excesso de citações, compondo
uma verdadeira compilação, o mesmo foi intencional,
tendo-se em vista a procura da fidelidade ao pensamento
e às palavras apresentadas pelos autores estudados,
sem perder o tom investigativo e reflexivo aqui anteriormente
proposto.
Para
a orientação e compreensão da leitura
deste texto, os conceitos que aqui foram objeto de estudo
foram colocados em negrito.
Se a época atual é uma época de mutações
- num acelerado processo de globalização -
o estudo da arte e do artesanato deve ser inserido dentro
deste contexto.
A compreensão
da questão da América Latina, seu posicionamento
periférico e as modificações impostas
pelos processos de migrações populacionais
e absorção e redimensionamento das diferentes
culturas são fatores que devem ser contados dentro
deste processo.
A questão da cultura, e suas definições,
são tratadas de forma equivalente entre os autores
aqui estudados.
A palavra
cultura vem do latim - do verbo colo - que significa cultivar
a terra.
MONTAGU,
no estudo da antropologia, aponta que:
"a cultura é a criação conjunta
do indivíduo e da sociedade, que interagem mútua
a reciprocamente, para se servirem, manterem, sustentarem
e desenvolverem um ao outro." ( p. 131)
E que
"tudo
o que um determinado grupo de pessoas, que vivem junto como
uma população em funcionamento, aprendeu a
fazer como seres humanos, o seu modo de vida, em suma, deve
ser considerado como cultura." (p. 14)
BOSI
segue no mesmo raciocínio, colocando que a cultura
deveria ser pensada como fruto de um trabalho, onde este
trabalho - realizado como tal - fosse parte fundamental
deste processo.
Não
adiantaria nada a um indivíduo se este, tendo determinado
objeto, apenas usufruísse do mesmo sem conhecer realmente
aquilo que tem em mãos. Ele teria o objeto mas não
cultura (conhecimento sobre aquele objeto). Seria necessário
a ele conhecer os processos de construção
daquilo com que está lidando, ou os processos históricos
que levaram à sua criação.
"Obra
significa exatamente trabalho, enquanto processo e enquanto
resultado"
(BOSI, p. 40)
Numa
análise da formação de uma determinada
cultura, poderia ser ali verificado que a mesma é,
ou pode ser, constituída de diferentes tipos de culturas
conforme a sua origem. Poderíamos ali observar, como
ainda aponta BOSI, uma cultura erudita, uma cultura popular,
uma cultura de massas e uma cultura criadora - a partir
de indivíduos ou grupos destes que trabalham com
a criação artística (não alinhavados
diretamente com as demais formas de cultura).
Se vivemos
numa sociedade dividida em classes sociais, com elementos
com condições econômicas e educacionais
distintas, provenientes de diferentes lugares, cada um deles,
ou cada grupo deles, terá um saber próprio
- independente dos meios de comunicação de
massa - que é compartilhado em seu grupo e com elementos
fora dele. Este saber poderá ser denominado sua cultura
ou cultura popular.
Cultura
popular "é a cultura que o povo faz no seu cotidiano
e nas condições em que ele a pode fazer ...
Se o sistema social é democrático, se o povo
vive em condições - digamos razoáveis
de sobrevivência - ele próprio saberá
gerir essas condições para que a sua cultura
seja conservada." (BOSI, p.44)
A cultura
popular "remete a um amplo espectro de concepções
e pontos de vista que vão desde a negação
(implícita ou explícita) de que os fatos por
ela identificados contenham alguma forma de saber, até
o extremo de
atribuir-lhes o papel de resistência contra a dominação
de classe." (ARANTES, p. 7)
"É
importante salientar que se constituiu entre os pesquisadores
uma certa estereotipia no sentido de que a grande maioria
dos estudos sobre cultura popular versa sobre atividades
artísticas e/ou religiosas. Há uma razão
para isso, entretanto. Na verdade, essas esferas da atividade
social, entre outras (por exemplo, magia e feitiçaria),
são estratégicas para o estudo da cultura,
na medida em que são constituídas socialmente
com instâncias de reflexão e ação
simbólica por excelência." (ARANTES, p.59)
Ao estudar a cultura popular de um povo, automaticamente,
se estará estudando o seu folclore.
A palavra
folclore vem do inglês antigo - folklore - significando
discurso do povo, sabedoria do povo, conhecimento do povo.
Este nome já foi, em fins do século XIX, relacionado
à "disciplina que se especializa no saber e
nas expressões subalternas." (CANCLINI, p. 209)
A Carta do Folclore Americano, aprovado pela OEA, em 1970,
aponta que:
- "o
folclore é constituído por um conjunto de
bens e formas culturais
tradicionais, principalmente de caráter oral e local,
sempre inalteráveis. As transformações
são atribuídas a agentes externos, motivo
pelo qual se recomenda instruir os funcionários e
especialistas para que não desvirtuem o folclore
e saibam quais são as tradições que
não têm nenhuma razão para ser mudadas;
- o
folclore, entendido dessa maneira, constitui a essência
da identidade e do
patrimônio cultural de cada país;
- o
progresso e os meios modernos de comunicação,
ao acelerar o processo
final de desaparecimento do folclore, desintegram o patrimônio
e fazem os povos americanos perderem sua identidade."
(CANCLINI, p. 213-214)
ORTIZ,
citado por CANCLINI, aponta que o estudo do folclore brasileiro
se deve, entre outros objetivos, a dar aos intelectuais
- que se dedicam à cultura popular - um recurso simbólico
através do qual possam tomar consciência e
expressar a situação periférica de
nosso país, estando também associado aos avanços
da consciência regional, oposta à centralização
do Estado.
Mas,
como ainda aponta CANCLINI, "a principal ausência
nos trabalhos de folclore é não questionar
sobre o que ocorre com as culturas populares quando a sociedade
se massifica." (p. 213)
E dentro
do processo de globalização, com a velocidade
de circulação de informações
e a agilização de sua acessibilidade, se torna
mais importante se preocupar com o que se transforma do
que com o que se extingue.
Dentro das ciências sociais, a Antropologia se define
como a ciência do homem. Etimologicamente, anthropos
quer dizer homem e logos conhecimento ordenado.
"O
ponto de partida usual do trabalho do antropólogo
é a observação direta de indivíduos
se comportando face a outros indivíduos e em relação
à natureza."
(ARANTES, p. 25)
A Antropologia Cultural ocupa-se do estudo das culturas
do homem e por todas as formas que assume o comportamento
humano social nas sociedades organizadas e sua cultura material.
Neste
ponto, o antropólogo e o folclorista assumem a postura
do estudo do artesanato - de um povo - relacionando-o com
a sociedade em que é feito.
Apontam que o artesanato relaciona-se a uma matriz mítica
ou a um sistema sócio-cultural autônomo que
dão a esses objetos sentidos precisos.
Mas deve-se observar que esta construção cultural
é multicondicionada.
Se a arte e o artesanato possuem um local específico
dentro da sociedade, desempenhando cada um o seu papel,
é importante introduzir neste trabalho a noção
de centro / periferia para uma melhor compreensão
do objeto aqui em estudo e de seus significados.
O centro
pode ser definido como aquele pólo - geográfico,
político ou econômico - que tem o poder de
determinar ações, adoção de
tecnologias, conceitos e/ou ideologias (que determinam formas
de pensamento) por todo um território que esteja
sobre seu domínio ou controle.
O conceito
de periferia pode ser verificado, como o oposto de centro,
como um local que engloba um espaço com sua população
- e suas atividades sociais e econômicas - que estão
afastados ou dominados (politicamente, economicamente, tecnologicamente
e/ou ideologicamente) pelos pólos econômicos
regionais, nacionais e/ou mundiais.
A partir
daí aponta-se a questão do local em que a
arte e artesanato são realizados (enquanto obra),
em que são comercializados, em que são consumidos,
em que são estudados, em que são analisados.
A arte e o artesanato são antes de tudo o trabalho
de pessoas que, com finalidades diversas, realizam algo.
Não
se pode mais, dentro do contexto do Brasil e da América
Latina relacionar o artesanato apenas às áreas
distantes dos grandes centros urbanos. Com a migração
das populações, e a mudança de atividades
dentro das áreas urbanas, a atividade do artesanato
é hoje realizada não só nas periferias
dos grandes centros mas também dentro de sua própria
área urbana. Dentro de contexto contemporâneo
- não apenas por ter deslocado o seu lugar de realização
- o artesanato já incorporou elementos de outras
culturas, verificando-se características que estão
além de sua matriz original.
Se o
conceito de arte, na época atual, é produzido
e consumido dentro dos grandes centros, o mesmo corre o
risco de reduzir-se apenas a eles mesmos (enquanto centros),
ignorando o fato de que o artesanato - enquanto obra e qualquer
que seja ele - é fruto do trabalho de pessoas que
o consideram sua arte pois é fruto de sua produção,
de seu conhecimento próprio e de sua cultura. Observa-se
que esta colocação é apontada tendo
em vista dois grupos sociais distintos - artistas e artesãos
- com características, produções e
conceitos também distintos.
No prosseguimento do raciocínio de centro e periferia,
encontra-se o conceito de nacionalismo - que é uma
construção simbólica - que pode ser
verificado na história brasileira em diversos de
seus momentos.
Exemplos
podem ser verificados no período da ditadura Vargas,
com os cadernos Avante, as músicas de Ari Barroso,
a Hora do Brasil e - durante o governo militar - a também
ditadura do governo Médici, com slogans como "Este
é um país que vai pra frente" ou "Brasil,
ame-o ou deixe-o", e as músicas de encomenda
"Eu te amo meu Brasil" e na Copa de 1970 "90
milhões em ação.....".
ORTIZ aponta que a necessidade de se construir uma identidade
nacional é uma imposição estrutural
aos países que ocupam uma posição periférica
dentro da organização mundial. E dentro do
conceito de dependência cultural, os meios de comunicação
aparecem como elemento fundamental num processo de dominação
que reforça a posição dos países
centrais.
Questão
esta que já remeteria ao estudo do imperialismo cultural
- elemento histórico a que estiveram/estão
sujeitos diversos segmentos da sociedade - independente
de que centros geradores ou graus de hegemonia de pensamento
alcançado - incluindo aqui as artes plásticas.
Exemplos
do mesmo podem ser verificados tanto no contexto histórico
brasileiro quanto no processo mundial de globalização.
Da época
colonial brasileira podem ser apontados aqui dois momentos:
a) no estudo da arte religiosa do período, as diversas
formas de expressão artística na orla litorânea
estiveram subordinados aos modelos europeus transplantados
pelas ordens religiosas;
b) no século XIX, com a vinda de Dom João
VI, o país (já na categoria de Reino) assiste
- em 1816 - à chegada da Missão Artística
Francesa.
Observa-se
aqui um centro - a corte portuguesa - determinando diretrizes
artísticas (com padrões estéticos)
sobre a colônia, no caso aqui a periferia, num claríssimo
exemplo de imperialismo cultural.
Dentro
de um processo de globalização, verificado
de forma intensificada no final do século XX, a questão
do imperialismo cultural se torna intimamente ligada àqueles
que se definem como centro do mundo e do saber. Tudo ligado
pela questão do dinheiro que determina as relações
de poder, as relações entre as nações,
entre quem vende e quem consome, entre quem determina e
quem aceita uma determinada "receita de bolo"
como valor.
A Coca-Cola pode ser citada aqui como exemplo de um fenômeno
comercial que determina valores não apenas de consumo
mas também de integração a um mundo
que a consome e valor de estar dentro da modernidade - dentre
outros. A mesma deixa de ser apenas um refrigerante: é
uma marca, é um produto, querendo determinar uma
hegemonia de um paladar único, sem considerar os
desejos individuais das pessoas. É também
um slogan e uma imagem servindo como signo estético
que a liga a uma determinada época.
A mesma é um exemplo claro de um processo de globalização.
O termo globalização se presta a várias
interpretações. Para uns ela é um processo
fatal e inescapável a qual não podemos fugir,
para outros, ela é uma mera ideologia, propagandeada
pelo Banco Mundial e pelos países dominantes, para
servir aos interesses das empresas multinacionais e do capital
mundial.
Enquanto
processo fatal e inescapável, verifica-se que este
se constitui em um processo de homogeneização
e padronização de diversos aspectos da vida
humana, econômica, política, social e cultural,
podendo colocar em risco a diversidade cultural e as condições
sociais de diferentes nações.
Porém,
verifica-se que tal risco não existe por completo,
podendo existir um processo de intercâmbios entre
nações sem afetar as diferenças culturais
destas. Fato é que, hoje em dia, diversas são
as expresses e modos de vida que são encontrados
em escala mundial: Shopping-Centers, MacDonalds, ou a Coca-Cola
mencionada acima.
O processo
de globalização não é novo,
mas veio a ser intensificado a partir das décadas
de 70/80 com a melhoria dos sistemas de transporte e comunicações,
que proporcionaram uma troca e generalização
de bens, pessoas e idéias de uma forma nunca vista,
além de permitirem uma nova configuração
do processo produtivo de forma a alterar a divisão
social do trabalho em escala mundial.
Portanto,
globalização é um fato que redimensionou
as noções de espaço e tempo. Em segundos,
notícias circulam no mundo, capitais são transferidos
eletronicamente, fenômenos locais afetam outros países,
assim como fenômenos mundiais atingem diferentes localidades.
Analisando
sob uma perspectiva ideológica, alguns autores caracterizam
a globalização com sendo a ocidentalização
do mundo, onde a forma do sistema econômico (capitalista)
e político (democracia) - que predomina nas principais
nações ocidentais (América e Europa)
- são aceitos em outras partes do mundo.
"O
sociólogo francês Alain Touraine denuncia a
exploração ideológica da globalização
vista apenas como um processo econômico que faria
submergir a política. Ele assinala que a globalização
se apóia em quatro grandes transformações.
A primeira é a criação de uma sociedade
informatizada, com a difusão mundial de indústrias
de comunicação que modificam nossa experiência
do tempo e do espaço.
A segunda
é a internacionalização do capital
financeiro, que aufere mais lucros na movimentação
de capitais do que no investimento produtivo. A terceira
é a emergência de novos países industriais,
sobretudo os Tigres Asiáticos, que associam abertura
econômica com rígido autoritarismo político
(ocorreram mudanças recentes na vida política
desses países). E a quarta é a influência
cultural norte-americana no resto do mundo. Touraine denuncia
a campanha ideológica que estaria por detrás
do processo de globalização."
(VIEIRA, p. 78)
Além
destas interpretações, fatuais e ideológicas,
percebe-se também que a globalização
também tem sido marcada por uma transformação
política, fazendo surgir novas configurações
de relações entre nações (Europa,
Alca) e também novos grupos sociais que, com interesses
e identidades comuns, se movimentam e afetam as decisões
destes Estados. Como exemplo, o Fórum Social Mundial,
realizado este ano em Porto Alegre.
É
importante a colocação de SANTOS de que dentro
do processo de globalização, enquanto este
não consegue a homogeneização pretendida
- agravando ainda mais as heterogeneidades - a cultura popular,
com uma nova significação, é capaz
de rivalizar com a própria cultura de massas
utilizando-se de instrumentos desta.
Compete também ao campo sociológico o estudo
das relações de trabalho e de suas implicações
sociais. As relações de trabalho são
importantes e devem ser aqui observadas dado que, na produção
da arte e/ou do artesanato, quando esta produção
envolver mais que uma pessoa, haverá entre elas uma
relação social que ali estará diretamente
determinada pelo trabalho executado.
"O
estudo dos padrões de relação de trabalho
vigentes em determinado contexto sócioeconômico
constitui uma importante categoria de análise sociológica
à medida que eles podem ressaltar ou mascarar as
condições reais em que se processa o trabalho
humano, em cada formação social específica.
Tais estudos devem enfocar as condições reais
em que as relações se estabelecem, quanto
às possibilidades de organização do
processo produtivo ao nível técnico, social
e da prática administrativa, e as percepções
que os agentes sociais envolvidos formulam desse quadro."
(FLEURY, FISCHER, p. 14)
"As
relações de trabalho constituem a particular
forma de relacionamento que se verifica entre os agentes
sociais que ocupam papéis opostos e complementares
no processo de produção econômica: os
trabalhadores que detêm a força de trabalho
capaz de transformar matérias-primas em objetos socialmente
úteis, adicionando-lhes valor de uso; e os empregadores,
que detêm os meios para realizar esse processo. Esta
definição deixa de ser tão simples
quando se verificam empiricamente e através do desenvolvimento
histórico das relações de produção
na sociedade capitalista, as inúmeras e diversas
possibilidades de concretização que assumem
as categorias sociais ocupadas por ambos os agentes. Ela
se presta, entretanto, para ressaltar que, independentemente
da complexidade de aspectos assumidos em cada situação
peculiar, as relações do trabalho são
determinadas pelas características das relações
sociais, econômicas e políticas da sociedade
abrangente."
(FISCHER, p. 19)
Dentro
de um contexto histórico, se torna interessante observar
a situação específica em que se encontrava
a população urbana de Minas Gerais do século
XVIII, que através de pessoas, de origens distintas
e conhecimentos diferenciados, agindo individualmente ou
em conjunto - determinando assim, entre elas, relações
sociais e de trabalho - propiciou o surgimento de um momento
artístico único - o barroco mineiro - obra
feita essencialmente por artistas leigos.
Na atualidade,
as relações de trabalho podem ser verificadas
e analisadas na produção artística,
a partir do momento em que, dentro da realização
de um trabalho, a mesma envolver mais de um indivíduo
em sua produção.
Por exemplo, poderá haver aquele indivíduo
que, detendo o conhecimento e os meios da produção
de seu fazer, trabalha com seus ajudantes - ou seus auxiliares
- que tendo, ou não, o mesmo conhecimento que o detentor
dos meios de produção - estarão ali
recebendo por seu trabalho executado. Situação
similar poderá ser analisada junto àqueles
indivíduos que, sem a posse dos meios de produção,
estarão ali trabalhando com alguém que detém
estes meios - aprendendo determinado ofício (com
remuneração ou não) - verificando-se,
deste modo, uma outra forma de relação de
trabalho.
Por fim, apresentar os conceitos de arte e artesanato, dentro
de um contexto sociológico, não é tarefa
das mais fáceis. Tal tarefa surge aqui como um conflito,
mas todo conflito se torna inevitável e é
sempre útil na medida em que define questões.
O que
realmente são? Os mesmos se opõe? Quais as
suas finalidades ou as suas especificidades? Onde são
produzidos? Seus espaços? Seus públicos?
A quem se destinam? Em que contexto devem ser inseridos?
Talvez a formulação destas perguntas possam
até mesmo ser uma das respostas para o presente trabalho.
Definir
arte na atualidade é, antes de tudo, retomando o
conceito de Duchamp, apontá-la como um espaço
apropriado para a produção visual do século
XX.
A forma
como é apresentada e/ou consumida determina um local
definido para compreender também a sociedade e a
forma de sua organização.
Sobre
o artesanato, que utiliza-se de matrizes que transformam-se
com o decorrer da modernidade, não pode-se dizer
que possui menor criatividade que a arte. O mesmo, produzido
por determinados grupos coletivos, ou indivíduos
isolados dentro do tecido urbano, relaciona-se diretamente
a um sentido prático do que e para que é feito
- função determinada quando são produzidos
- que pode ser, por seu usuário (público),
posteriormente modificada.
Nos
dias atuais, se dentro de uma sociedade urbana, o local
de consumo da arte e do artesanato pode ser definido por
galerias, museus, mercados ou feiras, a definição
e diferenciação do que é culto ou popular
deve passar por uma avaliação mais criteriosa
dada a circulação de informações
dentro de uma sociedade inteiramente massificada definindo
formas de expressão - na arte e no artesanato - que
se nutrem de uma mesma base.
"O
que é arte não é apenas uma questão
estética: é necessário levar em conta
como esta questão vai sendo respondida na interseção
do que fazem os jornalistas e os críticos, os historiadores
e os museógrafos, os marchands, os colecionadores
e os especuladores. Da mesma forma, o popular não
se define por uma essência a priori, mas pelas estratégias
instáveis, diversas, com que os próprios setores
subalternos constroem suas posições, e também
pelo modo como o folclorista e o antropólogo levam
à cena a cultura popular para o museu ou para a academia,
os sociólogos e os políticos para os partidos,
os comunicólogos para a mídia." (CANCLINI,
p. 23)
Deve-se
ressaltar também que se arte e o artesanato realizam-se
enquanto produção, ou atividade produtiva
de determinado elemento cultural, os mesmos devem ser observados
como fenômenos sócio-culturais distintos dadas
as suas especificidades, apesar do visível paralelismo
que se desenvolvem na atualidade.
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