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Arte e Artesanato: alguns conceitos
Arte Plumária
Visita ao município de Inhaúma
Entrevista com o artista e artesão - Agadman

Grupo:


Renato Melo Dolabella
Adriano Manna
Ana Fernandes
Aline Midori
Saulo Seeger

 

Arte e artesanato em termos sociológicos: alguns conceitos


Dentro de um estudo que se propõe na compreensão dos fenômenos da arte e do artesanato na época atual, a procura de um embasamento, através da exposição de conceitos do universo das Ciências Sociais, pode fornecer elementos que melhor direcionem - como suporte - a realização deste trabalho.

Não se pretende aqui esgotar-se todo um embasamento teórico do campo sociológico - que também estuda o mesmo assunto - mas, antes disto, fornecer - através da exposição de alguns conceitos - algumas diretrizes na condução da empreitada aqui proposta.

Por razões metodológicas, se no presente trabalho - que se propôs na exposição de conceitos diversos - houve um excesso de citações, compondo uma verdadeira compilação, o mesmo foi intencional, tendo-se em vista a procura da fidelidade ao pensamento e às palavras apresentadas pelos autores estudados, sem perder o tom investigativo e reflexivo aqui anteriormente proposto.

Para a orientação e compreensão da leitura deste texto, os conceitos que aqui foram objeto de estudo foram colocados em negrito.


Se a época atual é uma época de mutações - num acelerado processo de globalização - o estudo da arte e do artesanato deve ser inserido dentro deste contexto.

A compreensão da questão da América Latina, seu posicionamento periférico e as modificações impostas pelos processos de migrações populacionais e absorção e redimensionamento das diferentes culturas são fatores que devem ser contados dentro deste processo.


A questão da cultura, e suas definições, são tratadas de forma equivalente entre os autores aqui estudados.

A palavra cultura vem do latim - do verbo colo - que significa cultivar a terra.

MONTAGU, no estudo da antropologia, aponta que:

"a cultura é a criação conjunta do indivíduo e da sociedade, que interagem mútua a reciprocamente, para se servirem, manterem, sustentarem e desenvolverem um ao outro." ( p. 131)

E que

"tudo o que um determinado grupo de pessoas, que vivem junto como uma população em funcionamento, aprendeu a fazer como seres humanos, o seu modo de vida, em suma, deve ser considerado como cultura." (p. 14)

BOSI segue no mesmo raciocínio, colocando que a cultura deveria ser pensada como fruto de um trabalho, onde este trabalho - realizado como tal - fosse parte fundamental deste processo.

Não adiantaria nada a um indivíduo se este, tendo determinado objeto, apenas usufruísse do mesmo sem conhecer realmente aquilo que tem em mãos. Ele teria o objeto mas não cultura (conhecimento sobre aquele objeto). Seria necessário a ele conhecer os processos de construção daquilo com que está lidando, ou os processos históricos que levaram à sua criação.

"Obra significa exatamente trabalho, enquanto processo e enquanto resultado"
(BOSI, p. 40)

Numa análise da formação de uma determinada cultura, poderia ser ali verificado que a mesma é, ou pode ser, constituída de diferentes tipos de culturas conforme a sua origem. Poderíamos ali observar, como ainda aponta BOSI, uma cultura erudita, uma cultura popular, uma cultura de massas e uma cultura criadora - a partir de indivíduos ou grupos destes que trabalham com a criação artística (não alinhavados diretamente com as demais formas de cultura).

Se vivemos numa sociedade dividida em classes sociais, com elementos com condições econômicas e educacionais distintas, provenientes de diferentes lugares, cada um deles, ou cada grupo deles, terá um saber próprio - independente dos meios de comunicação de massa - que é compartilhado em seu grupo e com elementos fora dele. Este saber poderá ser denominado sua cultura ou cultura popular.

Cultura popular "é a cultura que o povo faz no seu cotidiano e nas condições em que ele a pode fazer ... Se o sistema social é democrático, se o povo vive em condições - digamos razoáveis de sobrevivência - ele próprio saberá gerir essas condições para que a sua cultura seja conservada." (BOSI, p.44)

A cultura popular "remete a um amplo espectro de concepções e pontos de vista que vão desde a negação (implícita ou explícita) de que os fatos por ela identificados contenham alguma forma de saber, até o extremo de
atribuir-lhes o papel de resistência contra a dominação de classe." (ARANTES, p. 7)

"É importante salientar que se constituiu entre os pesquisadores uma certa estereotipia no sentido de que a grande maioria dos estudos sobre cultura popular versa sobre atividades artísticas e/ou religiosas. Há uma razão para isso, entretanto. Na verdade, essas esferas da atividade social, entre outras (por exemplo, magia e feitiçaria), são estratégicas para o estudo da cultura, na medida em que são constituídas socialmente com instâncias de reflexão e ação simbólica por excelência." (ARANTES, p.59)


Ao estudar a cultura popular de um povo, automaticamente, se estará estudando o seu folclore.

A palavra folclore vem do inglês antigo - folklore - significando discurso do povo, sabedoria do povo, conhecimento do povo. Este nome já foi, em fins do século XIX, relacionado à "disciplina que se especializa no saber e nas expressões subalternas." (CANCLINI, p. 209)

A Carta do Folclore Americano, aprovado pela OEA, em 1970, aponta que:

- "o folclore é constituído por um conjunto de bens e formas culturais
tradicionais, principalmente de caráter oral e local, sempre inalteráveis. As transformações são atribuídas a agentes externos, motivo pelo qual se recomenda instruir os funcionários e especialistas para que não desvirtuem o folclore e saibam quais são as tradições que não têm nenhuma razão para ser mudadas;

- o folclore, entendido dessa maneira, constitui a essência da identidade e do
patrimônio cultural de cada país;

- o progresso e os meios modernos de comunicação, ao acelerar o processo
final de desaparecimento do folclore, desintegram o patrimônio e fazem os povos americanos perderem sua identidade."
(CANCLINI, p. 213-214)

ORTIZ, citado por CANCLINI, aponta que o estudo do folclore brasileiro se deve, entre outros objetivos, a dar aos intelectuais - que se dedicam à cultura popular - um recurso simbólico através do qual possam tomar consciência e expressar a situação periférica de nosso país, estando também associado aos avanços da consciência regional, oposta à centralização do Estado.

Mas, como ainda aponta CANCLINI, "a principal ausência nos trabalhos de folclore é não questionar sobre o que ocorre com as culturas populares quando a sociedade se massifica." (p. 213)

E dentro do processo de globalização, com a velocidade de circulação de informações e a agilização de sua acessibilidade, se torna mais importante se preocupar com o que se transforma do que com o que se extingue.


Dentro das ciências sociais, a Antropologia se define como a ciência do homem. Etimologicamente, anthropos quer dizer homem e logos conhecimento ordenado.

"O ponto de partida usual do trabalho do antropólogo é a observação direta de indivíduos se comportando face a outros indivíduos e em relação à natureza."
(ARANTES, p. 25)


A Antropologia Cultural ocupa-se do estudo das culturas do homem e por todas as formas que assume o comportamento humano social nas sociedades organizadas e sua cultura material.

Neste ponto, o antropólogo e o folclorista assumem a postura do estudo do artesanato - de um povo - relacionando-o com a sociedade em que é feito.
Apontam que o artesanato relaciona-se a uma matriz mítica ou a um sistema sócio-cultural autônomo que dão a esses objetos sentidos precisos.
Mas deve-se observar que esta construção cultural é multicondicionada.


Se a arte e o artesanato possuem um local específico dentro da sociedade, desempenhando cada um o seu papel, é importante introduzir neste trabalho a noção de centro / periferia para uma melhor compreensão do objeto aqui em estudo e de seus significados.

O centro pode ser definido como aquele pólo - geográfico, político ou econômico - que tem o poder de determinar ações, adoção de tecnologias, conceitos e/ou ideologias (que determinam formas de pensamento) por todo um território que esteja sobre seu domínio ou controle.

O conceito de periferia pode ser verificado, como o oposto de centro, como um local que engloba um espaço com sua população - e suas atividades sociais e econômicas - que estão afastados ou dominados (politicamente, economicamente, tecnologicamente e/ou ideologicamente) pelos pólos econômicos regionais, nacionais e/ou mundiais.

A partir daí aponta-se a questão do local em que a arte e artesanato são realizados (enquanto obra), em que são comercializados, em que são consumidos, em que são estudados, em que são analisados. A arte e o artesanato são antes de tudo o trabalho de pessoas que, com finalidades diversas, realizam algo.

Não se pode mais, dentro do contexto do Brasil e da América Latina relacionar o artesanato apenas às áreas distantes dos grandes centros urbanos. Com a migração das populações, e a mudança de atividades dentro das áreas urbanas, a atividade do artesanato é hoje realizada não só nas periferias dos grandes centros mas também dentro de sua própria área urbana. Dentro de contexto contemporâneo - não apenas por ter deslocado o seu lugar de realização - o artesanato já incorporou elementos de outras culturas, verificando-se características que estão além de sua matriz original.

Se o conceito de arte, na época atual, é produzido e consumido dentro dos grandes centros, o mesmo corre o risco de reduzir-se apenas a eles mesmos (enquanto centros), ignorando o fato de que o artesanato - enquanto obra e qualquer que seja ele - é fruto do trabalho de pessoas que o consideram sua arte pois é fruto de sua produção, de seu conhecimento próprio e de sua cultura. Observa-se que esta colocação é apontada tendo em vista dois grupos sociais distintos - artistas e artesãos - com características, produções e conceitos também distintos.


No prosseguimento do raciocínio de centro e periferia, encontra-se o conceito de nacionalismo - que é uma construção simbólica - que pode ser verificado na história brasileira em diversos de seus momentos.

Exemplos podem ser verificados no período da ditadura Vargas, com os cadernos Avante, as músicas de Ari Barroso, a Hora do Brasil e - durante o governo militar - a também ditadura do governo Médici, com slogans como "Este é um país que vai pra frente" ou "Brasil, ame-o ou deixe-o", e as músicas de encomenda "Eu te amo meu Brasil" e na Copa de 1970 "90 milhões em ação.....".

ORTIZ aponta que a necessidade de se construir uma identidade nacional é uma imposição estrutural aos países que ocupam uma posição periférica dentro da organização mundial. E dentro do conceito de dependência cultural, os meios de comunicação aparecem como elemento fundamental num processo de dominação que reforça a posição dos países centrais.

Questão esta que já remeteria ao estudo do imperialismo cultural - elemento histórico a que estiveram/estão sujeitos diversos segmentos da sociedade - independente de que centros geradores ou graus de hegemonia de pensamento alcançado - incluindo aqui as artes plásticas.

Exemplos do mesmo podem ser verificados tanto no contexto histórico brasileiro quanto no processo mundial de globalização.

Da época colonial brasileira podem ser apontados aqui dois momentos:
a) no estudo da arte religiosa do período, as diversas formas de expressão artística na orla litorânea estiveram subordinados aos modelos europeus transplantados pelas ordens religiosas;
b) no século XIX, com a vinda de Dom João VI, o país (já na categoria de Reino) assiste - em 1816 - à chegada da Missão Artística Francesa.

Observa-se aqui um centro - a corte portuguesa - determinando diretrizes artísticas (com padrões estéticos) sobre a colônia, no caso aqui a periferia, num claríssimo exemplo de imperialismo cultural.

Dentro de um processo de globalização, verificado de forma intensificada no final do século XX, a questão do imperialismo cultural se torna intimamente ligada àqueles que se definem como centro do mundo e do saber. Tudo ligado pela questão do dinheiro que determina as relações de poder, as relações entre as nações, entre quem vende e quem consome, entre quem determina e quem aceita uma determinada "receita de bolo" como valor.

A Coca-Cola pode ser citada aqui como exemplo de um fenômeno comercial que determina valores não apenas de consumo mas também de integração a um mundo que a consome e valor de estar dentro da modernidade - dentre outros. A mesma deixa de ser apenas um refrigerante: é uma marca, é um produto, querendo determinar uma hegemonia de um paladar único, sem considerar os desejos individuais das pessoas. É também um slogan e uma imagem servindo como signo estético que a liga a uma determinada época.
A mesma é um exemplo claro de um processo de globalização.


O termo globalização se presta a várias interpretações. Para uns ela é um processo fatal e inescapável a qual não podemos fugir, para outros, ela é uma mera ideologia, propagandeada pelo Banco Mundial e pelos países dominantes, para servir aos interesses das empresas multinacionais e do capital mundial.

Enquanto processo fatal e inescapável, verifica-se que este se constitui em um processo de homogeneização e padronização de diversos aspectos da vida humana, econômica, política, social e cultural, podendo colocar em risco a diversidade cultural e as condições sociais de diferentes nações.

Porém, verifica-se que tal risco não existe por completo, podendo existir um processo de intercâmbios entre nações sem afetar as diferenças culturais destas. Fato é que, hoje em dia, diversas são as expresses e modos de vida que são encontrados em escala mundial: Shopping-Centers, MacDonalds, ou a Coca-Cola mencionada acima.

O processo de globalização não é novo, mas veio a ser intensificado a partir das décadas de 70/80 com a melhoria dos sistemas de transporte e comunicações, que proporcionaram uma troca e generalização de bens, pessoas e idéias de uma forma nunca vista, além de permitirem uma nova configuração do processo produtivo de forma a alterar a divisão social do trabalho em escala mundial.

Portanto, globalização é um fato que redimensionou as noções de espaço e tempo. Em segundos, notícias circulam no mundo, capitais são transferidos eletronicamente, fenômenos locais afetam outros países, assim como fenômenos mundiais atingem diferentes localidades.

Analisando sob uma perspectiva ideológica, alguns autores caracterizam a globalização com sendo a ocidentalização do mundo, onde a forma do sistema econômico (capitalista) e político (democracia) - que predomina nas principais nações ocidentais (América e Europa) - são aceitos em outras partes do mundo.

"O sociólogo francês Alain Touraine denuncia a exploração ideológica da globalização vista apenas como um processo econômico que faria submergir a política. Ele assinala que a globalização se apóia em quatro grandes transformações. A primeira é a criação de uma sociedade informatizada, com a difusão mundial de indústrias de comunicação que modificam nossa experiência do tempo e do espaço.

A segunda é a internacionalização do capital financeiro, que aufere mais lucros na movimentação de capitais do que no investimento produtivo. A terceira é a emergência de novos países industriais, sobretudo os Tigres Asiáticos, que associam abertura econômica com rígido autoritarismo político (ocorreram mudanças recentes na vida política desses países). E a quarta é a influência cultural norte-americana no resto do mundo. Touraine denuncia a campanha ideológica que estaria por detrás do processo de globalização."
(VIEIRA, p. 78)

Além destas interpretações, fatuais e ideológicas, percebe-se também que a globalização também tem sido marcada por uma transformação política, fazendo surgir novas configurações de relações entre nações (Europa, Alca) e também novos grupos sociais que, com interesses e identidades comuns, se movimentam e afetam as decisões destes Estados. Como exemplo, o Fórum Social Mundial, realizado este ano em Porto Alegre.

É importante a colocação de SANTOS de que dentro do processo de globalização, enquanto este não consegue a homogeneização pretendida - agravando ainda mais as heterogeneidades - a cultura popular, com uma nova significação, é capaz de rivalizar com a própria cultura de massas
utilizando-se de instrumentos desta.


Compete também ao campo sociológico o estudo das relações de trabalho e de suas implicações sociais. As relações de trabalho são importantes e devem ser aqui observadas dado que, na produção da arte e/ou do artesanato, quando esta produção envolver mais que uma pessoa, haverá entre elas uma relação social que ali estará diretamente determinada pelo trabalho executado.

"O estudo dos padrões de relação de trabalho vigentes em determinado contexto sócioeconômico constitui uma importante categoria de análise sociológica à medida que eles podem ressaltar ou mascarar as condições reais em que se processa o trabalho humano, em cada formação social específica. Tais estudos devem enfocar as condições reais em que as relações se estabelecem, quanto às possibilidades de organização do processo produtivo ao nível técnico, social e da prática administrativa, e as percepções que os agentes sociais envolvidos formulam desse quadro."
(FLEURY, FISCHER, p. 14)

"As relações de trabalho constituem a particular forma de relacionamento que se verifica entre os agentes sociais que ocupam papéis opostos e complementares no processo de produção econômica: os trabalhadores que detêm a força de trabalho capaz de transformar matérias-primas em objetos socialmente úteis, adicionando-lhes valor de uso; e os empregadores, que detêm os meios para realizar esse processo. Esta definição deixa de ser tão simples quando se verificam empiricamente e através do desenvolvimento histórico das relações de produção na sociedade capitalista, as inúmeras e diversas possibilidades de concretização que assumem as categorias sociais ocupadas por ambos os agentes. Ela se presta, entretanto, para ressaltar que, independentemente da complexidade de aspectos assumidos em cada situação peculiar, as relações do trabalho são determinadas pelas características das relações sociais, econômicas e políticas da sociedade abrangente."
(FISCHER, p. 19)

Dentro de um contexto histórico, se torna interessante observar a situação específica em que se encontrava a população urbana de Minas Gerais do século XVIII, que através de pessoas, de origens distintas e conhecimentos diferenciados, agindo individualmente ou em conjunto - determinando assim, entre elas, relações sociais e de trabalho - propiciou o surgimento de um momento artístico único - o barroco mineiro - obra feita essencialmente por artistas leigos.

Na atualidade, as relações de trabalho podem ser verificadas e analisadas na produção artística, a partir do momento em que, dentro da realização de um trabalho, a mesma envolver mais de um indivíduo em sua produção.
Por exemplo, poderá haver aquele indivíduo que, detendo o conhecimento e os meios da produção de seu fazer, trabalha com seus ajudantes - ou seus auxiliares - que tendo, ou não, o mesmo conhecimento que o detentor dos meios de produção - estarão ali recebendo por seu trabalho executado. Situação similar poderá ser analisada junto àqueles indivíduos que, sem a posse dos meios de produção, estarão ali trabalhando com alguém que detém estes meios - aprendendo determinado ofício (com remuneração ou não) - verificando-se, deste modo, uma outra forma de relação de trabalho.


Por fim, apresentar os conceitos de arte e artesanato, dentro de um contexto sociológico, não é tarefa das mais fáceis. Tal tarefa surge aqui como um conflito, mas todo conflito se torna inevitável e é sempre útil na medida em que define questões.

O que realmente são? Os mesmos se opõe? Quais as suas finalidades ou as suas especificidades? Onde são produzidos? Seus espaços? Seus públicos?
A quem se destinam? Em que contexto devem ser inseridos? Talvez a formulação destas perguntas possam até mesmo ser uma das respostas para o presente trabalho.

Definir arte na atualidade é, antes de tudo, retomando o conceito de Duchamp, apontá-la como um espaço apropriado para a produção visual do século XX.

A forma como é apresentada e/ou consumida determina um local definido para compreender também a sociedade e a forma de sua organização.

Sobre o artesanato, que utiliza-se de matrizes que transformam-se com o decorrer da modernidade, não pode-se dizer que possui menor criatividade que a arte. O mesmo, produzido por determinados grupos coletivos, ou indivíduos isolados dentro do tecido urbano, relaciona-se diretamente a um sentido prático do que e para que é feito - função determinada quando são produzidos - que pode ser, por seu usuário (público), posteriormente modificada.

Nos dias atuais, se dentro de uma sociedade urbana, o local de consumo da arte e do artesanato pode ser definido por galerias, museus, mercados ou feiras, a definição e diferenciação do que é culto ou popular deve passar por uma avaliação mais criteriosa dada a circulação de informações dentro de uma sociedade inteiramente massificada definindo formas de expressão - na arte e no artesanato - que se nutrem de uma mesma base.

"O que é arte não é apenas uma questão estética: é necessário levar em conta como esta questão vai sendo respondida na interseção do que fazem os jornalistas e os críticos, os historiadores e os museógrafos, os marchands, os colecionadores e os especuladores. Da mesma forma, o popular não se define por uma essência a priori, mas pelas estratégias instáveis, diversas, com que os próprios setores subalternos constroem suas posições, e também pelo modo como o folclorista e o antropólogo levam à cena a cultura popular para o museu ou para a academia, os sociólogos e os políticos para os partidos, os comunicólogos para a mídia." (CANCLINI, p. 23)

Deve-se ressaltar também que se arte e o artesanato realizam-se enquanto produção, ou atividade produtiva de determinado elemento cultural, os mesmos devem ser observados como fenômenos sócio-culturais distintos dadas as suas especificidades, apesar do visível paralelismo que se desenvolvem na atualidade.


Bibliografia


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CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da
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FLEURY, Maria Tereza Leme, FISCHER, Rosa Maria (Coord.) Processo e
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FRANÇA, Júnia Lessa. Manual para normalização de publicações técnico-
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VIEIRA, Liszt. Cidadania e globalização. Rio de Janeiro: Record, 1997.
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