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Artesanato

A palavra arte pode assumir várias significações na linguagem, falando-se da transformação da matéria bruta pelo homem, ela pode representar uma forma de produção quando se desenvolve na procura do útil; ou uma forma de expressão se se desenvolve na procura do belo. Quando a palavra arte for citada neste texto deve ser entendida tal como nos fala Aristóteles; arte mecânica, técnica, arte de fazer ou simples ofício.

Inicialmente faremos algumas distinções entre a palavras usadas de maneira incorreta:

A primeira distinção que nos ocorre deve-se fazer entre molde, que é forma; e padrão que significa regularidade. Com molde se produzem objetos iguais ou cópias, sem originalidade alguma. Os balaios são padronizados e os adobes são moldados. Não devemos confundir padrão com uniformidade. Embora padronizada, cada peça feita à mão é única, não se confunde com nenhuma outra, nem da mesma espécie, ainda que tenha sido elaborada no mesmo dia e pela mesma pessoa.

O estilo do artesão empresta originalidade a seus objetos, como que a marca pessoal, enquanto o padrão é a marca do grupo. Cada artesão escolhe um estilo, mas não deixa de ser influenciado pelo ambiente (a natureza) em que vive e pelos modos de vida própria da área cultural que pertence.

A escolha do campo de trabalho artesanal do ofício ou especialidade é ditada pelo material adequado a transformação e abundante no lugar. Isso ocorre dos recursos naturais.

Os índios da Ilha de Marajó foram nossos melhores ceramistas, naturalmente porque dispunham de boa argila e no entanto não conheciam a pedra. Ao contrário dos índios da região do Amapá, Sacia do Rio Oiapoque foram grandes artesãos de objetos líticos pois estes dispunham de pedra e não de argila.

A aprendizagem de trabalho artesanal é adquirida de maneira prática e formal, ele se da nas oficinas ou na vivencia do indivíduo com o meio artesanal onde o aprendiz maneja a matéria-prima e as ferramentas e imita os mais entendidos no ofício de sua preferência. É comum o artesão servir-se de pequenas ferramentas, que na maior parte das vezes é desenvolvida por ele mesmo devido a necessidade de seu trabalho que o obriga a pensar e desenvolver. Emprega-se no artesanato o material disponível, gratuito ou de baixo preço. No artesanato indígena ou no folclórico esse material é normalmente extraído do local, mas não deixa de ser artesanato a produção de objetos com o aproveitamento de retalhos de papel, panos, fios de arame, de linha etc. A atividade artesanal esta ligada aos recursos naturais do estilo de vida e do grau de comércio com comunidades vizinhas sendo o artesanato uma manifestação da vida comunitária, o trabalho se orienta no sentido de produzir objetos de uso mais comum no lugar, seja em função utilitária, lúdica, decorativa ou religiosa. Não podemos falar em artesanato somente com o objetivo comercial, pois ele pode ser produzido para consumo próprio ou mesmo doação sem perder sua característica artesanal.

É comum confundirmos artesanato com rusticidade mas é importante observar que neste regime de trabalho fazem-se tantos objetos rústicos como bem acabados, pois o artesanato se define pelo processo de produção de objetos e não pelas qualidades práticas que pode ser emprestada a este no ato de fazer.

Artesão

Artesão é a pessoa que faz a mão objetos de uso freqüente na comunidade. Seu aparecimento foi resultado de pressão da necessidade sobre a inteligência aliada ao poder de inovar, possibilitando também ligar o passado ao presente, mediante a linguagem; possibilitou as gerações mais novas receber das mais velhas, suas técnicas e demais experiências acumuladas.

Perspectiva histórica do artesanato

O regime de trabalho que reúne as diferentes técnicas manuais de produção só recentemente ganhou nome, embora história assinala a presença de objetos feitos a mão em todas as épocas e nas mais variadas culturas. A atividade artesanal é muito antiga, há pelo menos meio milhão de anos o homem de Pequim conhecia e já fazia uso do fogo e sabia fabricar instrumentos de quartzo e de grés.

No Brasil em seus primeiros anos de colonização foram instaladas oficinas artesanais que se espalharam por todas as comunidades urbanas e rurais, onde os artesãos tiveram ensejo de desenvolver suas habilidades. Mas através da Carta Régia de 30 de julho de 1766 D. José I manda destruir as oficinas de ourives e declara fora da lei a profissão. Sei exemplo foi seguido por sua sucessora no trono D. Maria I, que perseguiu quase todas as formas artesanais do Brasil. Aos alvarás da Rainha Maria I, seguem-se o de 5 de janeiro de 1785 e o de 26 de janeiro do mesmo ano que proibiam a tecelagem caseira na colônia, abrindo apenas exceção para a tecelagem de panos grossos e que fossem destinados a vestir escravos. Esta situação só se reverteu com a carta régia do Príncipe Dom João de 1º de abril de 1808, que anulava alvarás proibidos de sua mãe e autorizava a atividade industrial caseira fosse ela qual fosse.

D. Pedro I, na constituição autorgada de 25 de março de 1824 aboliu as corporações de ofício no Brasil, seguindo assim o exemplo francês embora atrasado.

A carta da República de 14 de fevereiro de 1891 como a de 16 de julho de 1934 omitiam-se completamente, ignorando o artesanato. Mas a Constituição de Getúlio Vargas de 10 de novembro de 1937 amparou-o no seu artigo 136. "O trabalho manual tem direito à proteção e solitudes especiais do Estado". As cartas que se seguiram silenciaram-se com relação ao artesão. As únicas referencias proíbem diferença entre o trabalho manual e técnico ou cientifico, em parágrafo único nº XVII art. 157 da de 18 de setembro de 1946 e em o nº XVIII do artigo 158 da Constituição Castelana de 24 de janeiro 1966. Países mais adiantados não se omitem em relação ao artesanato e protegem sua industria caseira e reconhecem sua elevada importância econômica e social.

O conceito de artesanato

Inicialmente o que caracteriza o artesanato é a transformação da matéria-prima em objetos úteis, quem realiza esta atividade denomina-se artesão, este reproduz objetos que chegaram até ele através da tradição familiar ou cria novos de acordo com suas necessidades.

Para evidenciar melhor este conceito vamos definir o que não é artesanato.

  1. A industria têxtil ou manufatureira não se encaixa neste conceito pois há o predomínio da máquina ® é a fábrica, ali se produz tecidos, afinetos, aparelhos eletrodomésticos, muitos objetos etc, quem trabalha neste local denomina-se operário.
  2. Artes puras ou desinteressadas, em que se produzem bens artísticos em estúdios ou ateliês. Os profissionais normalmente possuem elevados sentimentos estéticos e formação erudita. Estes denominam-se artistas.
  3. Artes industriais ou ofícios - o lugar de trabalho é a oficina e os obreiros são artífices. A produção é mais ou menos organizada, e decompõe-se em várias fases ou operações elementares a que se costuma chamar de diversão do trabalho. Os objetos resultantes é criações de muitos, elas são produzidas em série embora não sejam obtidas em molde.
  4. Industria popular ou caseira, onde a matéria prima sofre transformação a fim de se transformar em bem econômico, exemplo: fubá, polvilho, cachaça, sabão etc.

Outras características do artesanato

  • Como sistema de trabalho que engloba os diversos processos de artesão, o artesanato assinala um avanço cultural e só apareceu como conseqüência da divisão de campo ocupacional no período histórico em que a precisão de meios de subsistência e os hábitos de vida em sociedade passaram a exigir maior produção de bens.
  • Sendo o artesanato uma manifestação de vida comunitária, o trabalho se orienta no sentido de produzir objetos de uso mais comum no lugar, seja em função utilitária, côo lúdica, decorativa ou religiosa.
  • O artesanato é um sistema de trabalho do povo, se bem que pode ser encontrado em todas as camadas sociais e níveis culturais. Podendo ser denominado artesanato indígena, ou primitivo, folclórico ou semi-erudito, requintado.
  • O artesanato é pratico, sendo informal sua aprendizagem. O que o artesão faz, cria-o ele próprio ou aprender na tenda artesanal da família ou do vizinho, observando como este fazia, pela vivencia e pela imitação, vendo-o trabalhar. Não se receber aulas teóricas; aprende-se a faze, fazendo; pratica-se porque quer; age-se voluntariamente. Vai daí o acentuado cunho pessoal do trabalho artesanal, apesar da vulgaridade da maioria das peças produzidas nesse sistema.

Não se deve confundir artesanato, que é fonte de produção, com o produto dele resultante. Produto é coisa e artesanato é o conjunto de maneiras pelas quais a coisa é feita.

Importância do artesanato

No processo evolutivo da raça humana, a atividade econômica deve ser examinada como etapa inicial. Sem trabalho, o homem não avança sequer um palmo na via esplendida do progresso. E foram as mãos que abriram o caminho para a longa e vitoriosa jornada que inda prossegue.

Desde tempos remotos, conforme vimos, o homem inventou e fez instrumentos, e descobriu processos que lhe aumentaram a eficácia da ação produtiva. À soma de tais possessos acreditamos poder chamar artesanato, embora nascente, porque, àquela época, eram as técnicas reduzidas em número e bastante elementares.

Além dessa sua importância histórica, o artesanato abrange outros valores, os quais hoje o tornam reconhecido, universalmente. Os povos mais desenvolvidos do mundo criam instituições destinadas ao seu incremento e o realizam mediante exposições periódicas e feiras anuais de objetos de arte popular, com distribuição de prêmios aos primeiros artesãos colocados, levantamentos de mapas artesanais, amparo comercial e outras medidas inteligentes.

Esse interesse fora do comum pelos trabalhos manuais se explica, provavelmente,com o receio às conseqüências do avanço tecnológico.

Examinaremos agora o artesanato sob alguns pontos de vista;

Social — Possibilitando ao artesão melhores condições de vida e atuando contra o desemprego, o artesanato pode ser considerado elemento de equilíbrio no país e fator de coesão, de paz social. Conforme se sabe, este sistema de trabalho conta com a participação ativa da família. O lar, então, além de centro de vida é também núcleo de aprendizagem profissional. Outrossim, o mestre-artesão desempenha um papel relevante na comunidade e sua arte é fator de prestígio.

Artístico — O artesanato desperta as aptidões latentes do obreiro e aprimora-lhe o intelecto. Suas mãos, obedientes a impulsos mentais e inteligentes, deslocam a matéria-bruta, grosseira e passiva, e convertem-na com o calor de sua imaginação em coisa útil e por vezes bela. É a idéia que deseja a forma. Vale repisar que o povo não faz arte desinteressada ou arte pela arte, mas, não raramente, sobre ser utilitária, suas peças são bem acabadas, produzidas com esmero e revelam bom-gosto. Se o artesão, ale’m de habilidade manual, possuir talento e sensibilidade, aí então ele vira artista. Desse modo, sua experiência artesanal seria apenas uma fase de formação artística.

Pedagógico — Isto quer dizer que os trabalhos manuais são de grande valor para a criança em idade escolar, principalmente os de carpintaria, modelagem e papel recortado. Doutra parte, considera-se o artesanato como excelente meio para a educação de certos, que, se bem orientados nesse plano, podem adquirir habilidade prodigiosa e se realizarem na vida, plenamente.

Moral — O artesanato pode dar causa ao aperfeiçoamento espiritual e moral do artesão, sendo certo que o trabalho afasta a pessoa dos vícios e da delinqüência, Daí o provérbio "cabeça de desocupado é tenda de satanás", cuja sabedoria e exatidão certamente não se põem em dúvida.

Terapêutico — O artesanato abranda o temperamento hostil ou agitado de pessoas que sofrem desvios de personalidade, as quais poderão corrigir suas aberrações através da ocupação manual. Se, por exemplo, um tipo psicológico agressivo deseja fazer mal a alguém, ele o realiza — digamos no barro, e então se satisfaz, por transferência, assim se liberta do incômodo, livra-se de seu estado de tensão e obtém o equilíbrio intrapsíquico ou paz interior. Esse trabalho se recomenda ainda a certos enfermos que são obrigados a permanecer no leito durante muito tempo, embora tenham válidas as mãos e possam produzir certos objetos que exigem mais habilidade e paciência do que esforço físico.

Cultural — O artesão imprime traços de sua cultura nos objetos que produz, consciente ou inconscientemente. Muitas de suas tradições, como símbolos mágicos e crenças, ficam marcadas em suas peças.

Psicológico O artesão se sente valorizado com sua arte porque faz objetos que têm serventia e isto lhe dá a certeza íntima de ser útil à comunidade. Ademais, e apesar do caráter regional do artesanato, o objeto produzido não deixa de ser o resultado de ato do artesão, que nele imprime a marca de sua personalidade. A psicotécnica adota medir certas dimensões psíquicas através de minucioso exame de objetos feitos a mão, nos quais a pessoas, inconscientemente, registra suas intenções e desejos e revela sua linha de comportamento.

A proteção ao artesanato

O progresso tecnológico refletiu mal sobre o artesanato, desestimulando-o. Para competir com a fábrica, o artesão começou, então, a produzir objetos sem aquele esmero e acabamento que valorizam tanto sua obra. A esse fator negativo, juntam-se a falta de incentivos , caracterizada principalmente pela injustiça da Lei, que protege o salariado e olvida o artesão; o xenofilismo ou exagerada preferência pelo artigo importado, desprezando-se o que é nosso, genuíno; a influencia da moda, que se opõe às formas tradicionais e conseqüentemente ao artesanato; e o intermediário, que,dentre os inconvenientes aqui enunciados seja, talvez, o mais nefasto.

Deve-se enfrentar o império da máquina, absorvente e monopolizadora, que substituiu o homem e o torna mero auxiliar dela, como também ess’outros motivos de desanimo do artesão, cujo estado se nos afigura como que a soma e a mistura de todas as causas de desprestígio ou mesmo de decadência do artesanato. Assinale-se, nessa luta pelo incremento artesanal, que a peça feita a mão valoriza o homem porque ela é resultado de sua própria criação e habilidade, ela contém parte de si mesmo — não é cópia. E ainda que, do ponto de vista comercial, sua venda se faça abaixo do justo preço, a moeda que advir dessa troca vai contribuir par ao orçamento doméstico e par ao aumento do nível de vida, pois tal peça se produz, em geral, nas oras de folga, como atividade subsidiária ou recreativa.

Nas condições primitivas em que se acha nas mais vezes, o regime de trabalho manual necessita de um estímulo vigoroso e pertinaz para se desenvolver, sendo que isto só se conseguirá mediante uma ação de Governo. Daí por diante é possível seu incremento natural, conforme se pode testemunhar com os resultados que se observam na Europa e na Ásia. De fato, países evoluídos daqueles continentes cedo percebem a conveniência em fomentar sua industria popular e seu artesanato, vale dizer aumentar as ocupações lucrativas. Abriram-se, então, instituições oficiais e particulares, que significaram o término de graves crises sociais e a elevação socioeconômica do povo, que passou a viver sem a angústia de pressões financeiras.

Não convém é que essa ajuda se faça de maneira ostensiva, mas cautelosa e pacificamente. A proteção deve limitar-se, traduzida em gráfico, a uma faixa cujos bordos se denominam intervenção e liberdade. Nem intervencionista nem liberalista. Aqui seria pecar pelo abandono, pelo laissez-faire, por deixar o artesão fazer o que quer, agir como criança ou como se vivesse na era lítica, com desperdício de esforço e tempo. O outro extremo se identificaria com o constrangimento do artesão e sua total submissão a esquemas rígidos ou formais, desnaturando-lhe o fluxo criador e sua puras manifestações de cultura popular e tradicional.

Desse modo, qualquer plano de proteção ao artesanato deve preceder-se de estudos bem dirigidos e deve ser elaborado com a convicção plena dos bons resultados que serão obtidos e segundo os objetivos a que se tem em vista alcançar. Primeiro, toma-se consciência do problema artesanal; em seguida, assume-se a posição mais adequada à realidade; afinal, é necessário agir, com o fim de cristalizar as idéias.

A proteção ao artesanato se esquematiza de modo que produza efeitos a longo prazo e a curto prazo.

O plano de proteção a longo prazo abrange a pesquisa, o ensino técnico-artesanal e a expansão turística.

A pesquisa se destina ao conhecimento da realidade artesanal, recursos naturais disponíveis em cada região e mercado consumidor. A realidade a que nos referimos nesta epígrafe se relaciona com as formas usuais e suas características, com os processos empregados na produção de objetos úteis e com as condições sociais de trabalho. A pesquisa é que vai indicar o ramo artesanal adequado ao lugar, tendo em vista, naturalmente, os fatores de natureza ecológica.

BIBLIOGRAFIA:

MARTINS, Saul. Contribuição ao Estudo Cientifico do Artesanato. Belo Horizonte. Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais. 1973.