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Diário
de Bordo 06/06/2001
Aula
da Professora Joice Saturnino - Artes da Fibra.
As Artes
da Fibra envolvem muito a questão da técnica.
A técnica
abordada a partir da cultura popular, onde muitas vezes
em um trabalho, sua importância é determinada
pela técnica utilizada.
A questão
da Arte e do Artesanato esta diretamente ligada à
cultura e como esta é apropriada.
O Artesanato
apropria-se da cultura para trabalhar, dentro da matéria,
a questão da produção do objeto e de
sua venda. O fazer, o fazer repetitivo aliado à questão
da sobrevivência. O artesão possui sua habilidade
mas se apropria da matéria da forma mais simples.
Esta maneira ligada diretamente à questão
da tradição.
O artesão
é inclusive aquele que mantém viva a técnica.
Porque se não fosse ele, não se teria esta
possibilidade de armazenamento desde conhecimento.
A Arte
se apropria da mesma cultura mas já usa esta linguagem
de uma outra maneira.
A diferenciação
entre Arte e Artesanato dá-se então na forma
como que apropriam-se da cultura.
A linguagem
utilizada é que fará a diferença.
O artesão
possui a técnica e a usa - como finalidade - de uma
forma utilitária (criando objetos com definição
precisa objetivando a venda dos mesmos) enquanto o artista,
com o seu conhecimento e a sua técnica, com o mesmo
material, utiliza-o como forma de expressão.
Artesanato
ligado a um sentido utilitário.
Arte
ligado a um conceito de expressão.
A cultura
de um povo é que vai mostrar sua Arte, ou seja, a
Arte é o modo, é o retrato da cultura dentro
do momento em que está sendo produzida. O Artesanato,
da mesma forma, só que diferenciando-se da Arte na
forma de apropriação da cultura.
Nas
artes da fibra trabalha-se com três vertentes: a tecelagem,
a tapeçaria e o papel, que são as três
maneiras que tem-se para se aproveitar a fibra.
A fibra
está presente em todas as plantas, de onde retira-se
esta matéria prima.
A tecelagem
começa a ter uma importância na época
de Goya, de Rubens, onde estes artistas faziam os cartões
as pinturas - que eram levados para um ateliê,
onde encontravam-se os artesãos que faziam as tapeçarias.
Eram tapeçarias bordadas, utilizadas para cobrir
as paredes dos castelos muito em função do
frio pois eram usadas como isolantes. Então
encontram-se, da época, tapeçarias de 8x8m,
10x10m. Algumas delas, hoje, encontram-se no Museu do Tapete,
em Santiago de Compostela Espanha.
No caso
das tapeçarias bordadas (que eram chamadas também
de pinturas tecidas), o que importa é o desenho que
o artista fazia e que o artesão executava. Aí
é que vem a questão da habilidade, da técnica.
Cada
fio do tapete é tingido antes de se iniciar o processo
de sua confecção, onde cada cor é comparada
exaustivamente com o cartão pintado anteriormente
pelo artista.
No tapete
persa gasta-se aproximadamente seis meses para se fazer
um metro quadrado. Hoje, no computador, em menos de uma
hora é possível fazer-se este mesmo metro
quadrado e muitas vezes é difícil verificar-se
a diferença.
Existe
aí então a modificação no mecanismo
de sua execução. O computador versus o homem.
O tapeceiro
é aquele que faz o desenho e o executa e o cartunista
é aquele que faz apenas o cartão. Cabia ao
artesão ficar com o grosso do trabalho na execução
do tapete.
Na questão
do artesão podem ser ali definidas várias
escalas em função da atividade executada por
ele. Por exemplo, no trabalho da palha trançada:
hoje já é possível comprar-se a matéria
prima no mercado. Mas existe a pessoa que vai no mato para
fazer a extração da fibra, preparar e entregar
aquela tira pronta, ou seja, cabe a ela a preparação
da matéria prima.
A tecelagem,
dentro de um único trabalho, muda muito. Se a pessoa,
ao executá-lo está com a mão quente
ele sai de um jeito, se ela está nervosa, ele sai
de outro. A tensão, tudo influi no resultado final.
A tecelagem é muito ligada à terapia principalmente
por causa disto. A execução de cada ponto
e de seu tecido, se alguém começar a prestar
atenção no movimento de sua execução,
são verdadeiras mandalas. Existem determinados pontos
que são usados para mexer com determinadas energias
da pessoa que os executa, havendo pessoas que trabalham
com meditação em cima do tear.
A partir
dos anos 90, houve uma fase de estagnação
muito grande na produção da tapeçaria
sem que a mesma pudesse apresentar inovações.
Ao estudar-se
a cestaria no Brasil, ou no mundo, serão verificadas
questões específicas da cultura, da fibra
e do local em que é produzida. Em qualquer lugar
a fibra e seu produto final terão características
diferentes. A mesma planta, encontrada em Minas Gerais ou
no Ceará, fornecerá fibras diferentes pela
questão do solo e do clima, determinadas também
pelo tipo do processo de extração da mesma
que influirá também no produto final.
No caso
do artesanato, por exemplo, no nordeste utiliza-se muito
a fibra para se fazer redes ou peneiras. No norte, diferenciando-se,
como uma região com uma grande bacia fluvial, já
utilizam a fibra para outras finalidades como para os cestos
(de peixes).
Por
mais primitivo que seja o modo de trançar as fibras,
a estrutura básica quase sempre será a mesma.
Mas existem diferenças no acabamento, nas aparas,
na maneira de puxar. Principalmente no acabamento.
O papel:
a partir da planta, retirando-se suas fibras - que são
feitas de uma cadeia de celulose - quebra-se então
esta cadeia e recoloca-a de uma outra maneira. Enquanto
na planta, as fibras estão amarradas umas nas outras,
formando uma estrutura - o esqueleto da planta - no papel,
tendo-se esta cadeia quebrada, forma-se então um
feltro, como uma outra estrutura.
Ao fazer-se
um papel, a primeira coisa a se definir será a sua
finalidade. A partir dela então serão determinadas
as características que o papel deve possuir - como
lisura ou elasticidade, por exemplo - para que possa atender
à sua função.
Até
o final do século XIX, as academias preservavam todas
as técnicas, muito bem preservadas. As técnicas
de pintura, as técnicas da escultura, todas elas.
Já no início do século XX, dentro das
artes, vigora uma ideologia de se negar o passado. Hoje
em dia existe uma certa dificuldade de se retomar estas
técnicas. Mário de Andrade e o modernismo
brasileiro não se alinharam com o modernismo internacional.
O modernismo internacional formulou-se num processo de se
negar mesmo, fazendo tábula rasa de todo conhecimento
anteriormente acumulado, coisa que não acontece com
o modernismo brasileiro onde o mesmo ainda se preservava.
Só que depois da segunda guerra mundial, com o advento
da cultura de massa - quando são desenvolvidos os
meios de comunicação eletrônica - surge
esta "paradeira", que hoje é reconhecida,
que está diretamente ligada à popularização
da informática.
Com
o Golpe Militar de 1964, houve uma certa exaltação
do nacionalismo - até o final da década de
70 - com a valorização do artesanato, da tecelagem
e do cinema brasileiro (pela Embrafilme), que tiveram então
o "seu momento". O estado militar de certa forma
sustentava muito estes projetos como que uma frente política
de afirmação de uma identidade nacional.
Com
o início dos anos 90, observaram-se então
os processos de popularização da informática
e, com o neoliberalismo, a privatização do
Estado brasileiro. Então todo o processo anteriormente
montado pelo governo militar, de valorização
da cultura nacional por parte do Estado foi levado à
bancarrota.
Um
pequeno glossário:
Embira
elemento de toda planta em que é possível
retirar a entrecasca e com ela conseguir fazer nós.
Não
existe nenhuma árvore com o nome de embira. Existe
sim a embira da bananeira, a embira da amoreira, etc...
Cada
planta, com sua seiva e suas resinas terão diferentes
tipos de oxidações definindo o tipo de sua
coloração.
Macramê
técnica baseada na utilização
de nós.
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